Pesquisar este blog

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Em algum lugar da Praça XV

Desço do ônibus na Praça XV. Procuro pela Casa América, restaurante dos bons, clima carioca, ótima cozinha, informal e frequentado por cariocas de corpo e de alma, vips ou cidadãos comuns. Na única vez que lá fui, cumprimentei o ex-presidente Fernando Henrique que estava próximo do bar, na primeira curva após o corredor onde fica a recepção. A Casa não tem câmeras nem qualquer man in black a fazer-lhe a segurança. Naquela vez, comemos um Bacalhau à Portuguesa absolutamente inesquecível. Custo a encontrar a Casa América, reluto em perguntar aos passantes; logo eu, conhecedor de cada canto daquela região. Ora, o restaurante era mesmo ali - um pedaço da Praça XV, colado à antiga tabacaria, que eu teimava em considerar como rua Sete de Setembro; afinal, este era o endereço. Pensei se estaria escondido atrás de algum tapume, para obras, ou se não teria letreiro, posto atrás de alguma fachada preservada pelo IPHAN e se abriria apenas para o jantar. Não, não pode ser - o movimento intenso da cidade àquela hora era razão suficiente para abrir para almoço. Por mim, se minha lembrança não falha, ficaria sempre aberto.
Resolvo recorrer à memória da última e única vez em que lá estive, na verdade há poucos dias. Meu avô, morto aos 74 anos, em 1979, resolveu visitar-me, numa noite improvável no Centro do Rio. Próximos da Candelária, onde uma imensa fila buscava futuro apostando na megassena acumulada. Dobramos na rua da Quitanda, subimos a rua da Alfândega e chegamos à rua Primeiro de Março. Linda, os sobrados iluminados, bares planos cheios de gente feliz, a maioria em pé, junto ao balcão tomando chopps que estenderiam o rush e a justificativa para o happy hour para além das nove da noite em plena terça-feira. Meu pai, morto em 2005, aos 74 anos, ligou. Tinha um sorriso imenso na voz e insistia que fôssemos os três até a rua Sete de Setembro, ao Restaurante Casa América. Ele vinha de Copacabana e não se importava com o cansaço depois de trabalhar duro até quase as nove da noite. E para lá fomos eu e meu avô encontrar a Casa cheia de conhecidos e desconhecidos que se tornavam amigos em segundos e que abriam espaço em suas mesas e em seus corações para nos receberem. Vieram os bolinhos de bacalhau, pequenos pastéis, as azeitonas, as torradas de pão francês - o lugar parecia o restaurante Mosteiro; este, na rua São Bento e muito mais formal e caro. Só que aberto para a rua, bar ao fundo, esplanada aberta para a Praça XV iluminada, viva e cheia de gente àquela hora. O Bacalhau à Portuguesa, alto, sal na medida, couve farta, azeite grosso a acompanhá-lo, foi servido junto de um bom vinho verde branco e geladíssimo, Casal Garcia. Meu pai chegara minutos antes e parecia íntimo de todos na Casa América. Lembro do forte abraço que nos demos na tal curva do bar. Sem muita cerimônia, e com a devida alforria concedida por minha mãe, todos comemos e bebemos muito bem e com prazer inesquecível. O café do meu avô clinicamente reforçado por gotas generosas de uma boa bagaceira lusa. Entre uma e outra garfadas, ao abaixar levemente a cabeça, percebi que meu pai não estava mais ali. Aquela parte do salão tinha se esvaziado e o restaurante fazia naquele momento os últimos pedidos para a cozinha. Onze horas da noite. Pedi um pastel de Belém. Após o seu café com gotas de bagaceira, também meu avô tinha deixado a Casa sem que eu percebesse. Pedi a conta, mas ela já estava paga, me disse o garçon. Eu parecia sozinho novamente, mas a praça tinha muita luz e muita gente; eu tinha o Centro do Rio como um amigo fiel. As ruas limpas, claras e frescas com a própria luz a indicar o caminho que eu deveria seguir.
Estou à procura da Casa América no Centro do Rio e sei que ela está em algum lugar entre a Candelária e a Praça XV. Sei que está lá, mas o que cabe é voltar à noite, refazer o caminho.
É o que faço, mas começo mais longe do Centro. Vou até os Arcos da Lapa. Tenho o endereço do restaurante, de outro restaurante: rua Visconde de Maranguape, 24. Bar, restaurante e lanchonete que se foi há muitos anos na chamada revitalização da Lapa. O local deve estar hoje perdido em algum canteiro central. Os Arcos bem à frente dos olhos, meu avô como cozinheiro (não, naquele tempo não ousariam chamá-lo de chef). Dona Clorinda à frente do balcão da lanchonete, aqueles imensos baleiros onde suas mãos iam buscar doces e balas pro neto do Seu Manuel. Notava entre os dois um carinho imenso, uma paixão nunca assumida, porque novo amor após a viuvez precoce do Seu Manuel só mesmo pelo neto brasileiro, embora houvesse outros três em Portugal que queria amar também, mas que conheceu apenas por fotos. Trabalhou em outro restaurante, o Arouca, na esquina das ruas Barão de São Félix e Bento Ribeiro, onde é hoje o Terminal Rodoviário Américo Fontenelle, entre a Central do Brasil e o Túnel João Ricardo. Lugar onde havia, além do restaurante com mesas de madeira e toalhas cor de neve, uma barbearia onde eu cortava o cabelo com o Seu Carlos, uma ótima banca de jornal, engraxate. O fogão a lenha, nele havia uma chapa sobre a qual filés e outras carnes ficavam prontos em segundos, saborosíssimos e inigualáveis. Não, Seu Manuel não era dono, mas mandava muito. Tinha o respeito da dona, D. Rosa, e a admiração um pelo outro era visível. Lembro-me de meu avô ter encerrado uma briga com o peso da sua voz, embora tivesse na mão direita uma faca - digamos - como regra três. Também era uma espécie de terapeuta entre amigos e colegas, aconselhando decisões a partir de diagnósticos a que chegava em poucos minutos de conversa. Não era Homem de rir à toa, embora deliciasse a ele próprio e a todos à sua volta quando com rara precisão punha apelidos nas pessoas. Quando ouvia um palavrão mais duro entre a rapaziada do futebol, salvava o ofendido que, por exemplo, chamado de filho da puta, ganhava a sua paternidade. Era respeitado, admirava e era admirado pelos vizinhos do bairro, especialmente da vila onde morávamos todos.
Lapa - Central, e agora? Lá vou eu, desta vez sem a companhia do avô, à procura da Casa América. Percebo no caminho o Antigamente, o Cais do Oriente, o Casual Retrô, a Brasserie Rosário, o Al-Fárábi, a Adega do Timão, o Rio-Minho, mas onde está a Casa América? Procuro entender que aquele lugar mágico onde se fazem amigos, onde se reencontram saudades, onde só vai quem leva alegria e é livre, onde se come e bebe bem sem culpa, onde a luz carioca é intensa sem competir com a noite, onde o espaço é público sendo de cada um, só se encontra tendo acesso a um portal real que o mundo virtual esconde muito bem escondido. Meu avô deve cozinhar por lá, e meu pai é filho do chef. Qualquer dia eles me convidam de novo. A trilha já encontrei em http://letras.mus.br/milton-nascimento/27700/





Um comentário:

Luiz Matos disse...

Muito bom! Belo texto..