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sábado, 2 de abril de 2011

E o vento me levou!


Um dia é muito rico para ser desperdiçado.  Uma certa dor de cabeça, outra dor incerta no joelho esquerdo. Nada de dipirona, nem anti-inflamatório.Nem clínica, médico, sala de espera, exames , que isso não carece . Doutor formado bacharel mas longe da medicina, onipotente capaz de diagnóstico próximo da precisão: o joelho, culpa de uns dribles - ou a tentativa de executá-los – e a marcação cerrada numa roda de bobinho frente a adversários muito mais jovens. A dor de cabeça, fruto da desaceleração seguida de repentina aceleração por amar o futebol das quartas-feiras e ver o  nosso Fluminense (porque do Rio de Janeiro)  fazer gato e sapato de crédulos torcedores. Um dos quais, vizinho, de corneta e tudo a comemorar a sobrevida do time na Taca Libertadores. Coisas do futebol – ambas.
Receita? Meta-se no carro, esqueça um pouco desse calor, confie no vento. Vá até onde puder, na infindável busca de sua origem. Como o seu caminho inclui o Aterro do Flamengo, você se ilude. Encontra uma escala do vento, pensa ter-lhe encontrado a origem - a entrada da Baía de Guanabara é só uma estação que não cobra por sua passagem. Revisite o skyline do Rio, à esquerda; note que o vento sopra outra vez pra dentro do carro. Escape do anda e pára do trânsito da Av. Beira Mar, das nuvens de fumaça e de som. Refresque-se, agora sim, com o ar condicionado, sem perder de vista o mesmo vento, agora vestindo como uma luva a carroceria do carro. Suba a Perimetral, alcance a Ponte, viaje sem embarcar em algum transatlântico do Porto do Rio, que lhe povoe os sonhos, ou simplesmente despreze-os hoje porque o destino que lhe aguarda - e você ainda nem sabe dele - é tão simples, inédito, real e próximo que chega a ser um luxo. O que você leva no bolso é pouco, mas dá pra chegar lá, não haverá cassino a bordo, mas você cairá em algumas tentações capazes de lhe reduzir o trajeto e, ao mesmo tempo, ampliar horizontes. Ficará mais rico sem jogar e não precisará blefar. Basta decidir-se por um mergulho no fim da tarde e um café no início da próxima manhã. Escolha o lugar: Itacoatiara, Camboinhas...os dois, ou mais. Lembre-se do amigo que te convidou a conhecer um lugar que está no meio do caminho desse destino. Tome o caminho do Ingá; depois do MAC, desça e vire à direita na rua Dr. Nilo Peçanha. Passe a primeira esquina, a padaria, encontre um pequeno bar à esquerda, com o Luiz Roberto no balcão, os escudos e as fotos do seu América FC, campeão estadual da 2ª Divisão em época de vacas magras, clube também de vividas histórias ricas de paixão incondicional quando dois irmãos gêmeos, de cabelos cheios e louros entravam com o time em campo com o mesmo orgulho e alegria com que hoje, atrás do balcão e à frente de seu negócio, um senhor fala do seu clube e de sua paixão ainda maior pelo bom Futebol. Coadjuvante com prestígio de Oscar da Academia, o pastel atrás do vidro, no Balcão, foi eleito o melhor de Niterói. Pela gravação feita sobre os azulejos de cores alvi-rubras, americanas, o título permanece na casa, parece vitalício e é incontestável que os pastéis batem mesmo um bolão. Craques no mesmo nível de Alex, Edu Coimbra, Ivo, Flecha, Bráulio, Luisinho...ídolos da década de 70 - uma delícia o Futebol que jogavam. Começo pelo tradicional, um pastel de carne, fecho com o pastel de feijoada - quentinho, uma delícia à qual valeria preceder de uma caipirinha. E me surpreendo lembrando cada nome do time de 74. Folheio a revista Placar, uma edição de 1970 e alguma coisa, guardada por mais de trinta anos, de tom sépia que lhe deu o tempo. Há nela uma matéria, com a foto dos gêmeos - Luiz é um deles - entrando em campo, mascotes do América. Senhoras, jovens, aposentados, amigos diários da cervejinha passam pelo bar, encostam-se no balcão, provam e aprovam os pastéis do Bar Manhães. Eu, de passagem para conhecer o bar e os pastéis, fico mais rico sem pôr a mão no bolso, porque o melhor é a riqueza humana que brota de cada uma dessas pessoas. Seu Luiz parece conhecer todas elas, e suas histórias. Discretamente, partilho de trechos de algumas delas. Algumas pedem os pastéis pra levar pra família, pro trabalho, pra depois...; enfim, pra viagem. E aí, lembro da minha viagem - 50 Km da zona sul do Rio até o destino Itacoatiara. Lembro da tal receita médica, digamos assim, pra aliviar as dores de cabeça e do joelho. Das quais, meia hora de bar, não me lembrava mais. A prescrição leiga seria respeitada e eu seguiria o caminho até a região oceânica de Niterói. A praia de Itacoatiara continuava linda, o Costão convidou pro mergulho, a Pedra do Elefante protegia, como um emblema, também a manhã seguinte. Farta, a partir de um café da manhã servido na padaria do bairro ao qual neste caso caberia sem exagero a expressão de  pequeno almoço, usada pelos portugueses. Ainda mais saudável, depois de cinquenta minutos de caminhada moderada. Diante da beleza do bairro, e de sua gente, o joelho dobrou-se várias vezes; portanto passou no teste. A alma lidou com flores e árvores do nome das ruas. A dor de cabeça não resistiu ao tratamento - um coquetel composto pelo vento no rosto, pela beleza da Baía e do Rio visto da Ponte, pelo Caminho Niemeyer... Camboinhas e agora as ruas, o verde, a Pedra e o mar em Itacoá. Ouvidos os médicos e os leigos, está comprovado porém que foram o Ingá, sua gente e seus pastéis, e o balcão do Bar Manhães os indícios científicos da cura. Preciso repetir o tratamento. Mesmo sem dores de cabeça, dizem que a prevenção é o melhor remédio. Registre-se que por mais agradável que seja o vento vindo das praias de Boa Viagem e das Flechas, ele fica do lado de fora no caso dos pastéis do Seu Luiz e do seu Bar Manhães. Não passo abril sem voltar lá, pra conhecer o pastel de carne seca.

2 comentários:

Justine disse...

ADOREI: o passeio, o cheiro do mar, a saliva na boca ante os sabores anunciados, a terapêutica e a profilaxia para as dores várias (e que todos os médicos portugueses deviam prescrever...), e a deliciosa ironia mesclada de ternura com que tu escreves sobre a tua terra, sempre!
Abraço amigo

Aleatoriamente disse...

Huuum... E esse cheirinho carioca me apetece os sentidos. Amo o RJ e sinto saudades desses passeios com o vento.

Beijinho