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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Paralelas que se encontram

Alguém aí conhece a Poetas da Calçada? Ou já foi ao Kuwait? Ou já topou com Francisco Alves na travessa em pleno século XXI? Já comeu purê cor de rosa? Conhece Tricanas da Beira? Periquita?
Calma, que ainda estou fora da nave.
O forum global carioca é evento constante na cena carioca, seja no SAARA ou em Copacabana, mas esta edição ocorre entre paralelas. Já disse que o mundo cabe numa rua, e cabe, mesmo num estreito. Entre as ruas Treze de Maio e Senador Dantas. Ruas que por si só têm suas atrações. Ambas escorrem gente, rios de gente em águas de mão dupla. A primeira é língua que busca, de um lado, a brisa baiana da Guanabara. Do outro, o ar no Largo da Carioca. Corre o risco de secar porque depois dele, em dias como o de hoje, o duto da rua Uruguaiana suga-lhe a brisa e devolve calor de compressor. E o verão ainda não chegou. Não? Passa, num sentido ou no outro, por boas tentações de arte, cultura, arquitetura e fé. Todos, ou quase, juntos, em cada um dos lugares. Afaga o prédio onde não é mais o Cordão do Bola Preta, mas de onde ainda saiu seu bloco, nosso bloco, no último carnaval. E lá estará no próximo. Cola o rosto ao Theatro Municipal, centenário renovado; flerta com o Caixa Cultural, na esquina com Almirante Barroso. Na mesma esquina, admira o estilo neomanuelino do Liceu Literário Português. Olha com fé para o Convento de Santo Antônio, já no Largo mas ao alcance dos olhos da Treze de Maio. No sentido contrário, de volta ao Bola Preta, a rua perde o nome pra Praça Floriano. Faz mal não, todo mundo chama de Cinelândia. Ainda se chama Treze de Maio e é possível aos olhos ver a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural da Justiça Federal, o Museu Nacional de Belas Artes - ainda que a rua torça o pescoço pra ver um deles. A outra rua, a tal paralela que eu já ia perdendo a chance de encontrar neste espaço finito é a Senador Dantas. Também tem história. Pena que há alguns prédios abandonados ao destino que abriga mendigos, camelôs, desocupados. Mesmo destino que abriga o blogueiro. Quem tem 50 anos se lembra do Cine Vitória. Ainda é possível enxergá-lo no meio do cinza da poeira e do cimento, e do cáqui dos papelões - camas ou displays conforme a ocasião. A primeira esquina nos entrega o Passeio Público, seu jardim e o chafariz de Mestre Valentim. O imponente prédio que já foi o Hotel Serrador, a saudade do relógio da Mesbla, companheiros de calçada da Senador Dantas. A segunda, na contramão da rua, à esquerda, com a rua Evaristo da Veiga, flerta com a Lapa, os Arcos novamente brancos. A subidinha antes da última é o acesso ao bondinho de Santa Teresa. Catedral por perto, e as catedrais da Petrobras, do BNDES, da Caixa Econômica Federal, idem. Tudo perto de território chileno e paraguaio - Avenidas Chile e República do Paraguai.
Voltemos aos Poetas, na verdade à Travessa dos Poetas da Calçada, que se estreita entre as ruas Senador Dantas e Treze de Maio. É lá que se juntam o vinho Periquita, algumas mesas com a garrafa, e o azeite Tricanas da Beira em todas elas - portugueses, com certeza. Mais o Francisco Alves, nome de cantor das antigas, garçon do restaurante Al Kwait, tão atencioso e simpático que me sugeriu (e me convenceu a provar) um par de kaftas acompanhado de um purê de beterraba, o tal purê cor de rosa, ambos consumidos pela fome das três da tarde, honestíssimos. No cenário do restaurante, um democrático balcão onde se pode pedir a bebida, as esfihas e "o melhor quibe do Rio" - assim também chamado nos restaurantes típicos e nos seus balcões do SAARA, na galeria Condor no Largo do Machado, na Galeria Menescal e no Amir, ambos em Copacabana...e provavelmente em meia dúzia de lugares cuja qualidade da oferta obriga a empate técnico. Meu voto é pra galeria Condor, mas a culpa é da esfiha, do suco e do cara do balcão que chama todos de primo, primo. Não notei no Al Kwait garçon ao qual coubesse tratamento diferente de Senhor. Nosso Francisco Alves, chamado Chiquinho, talvez seja um dos poucos por lá sem a autoridade dos cabelos grisalhos.  A proposta do Chiquinho é aparecer de novo por lá, numa quarta-feira, pra provar o Carneiro. Depois, quem sabe, pegar o bondinho, ir até Santa Teresa e tomar a saideira no Bar do Arnaudo. Mas esta proposta é minha. Paralelas que se encontram felizes - pelos braços de Alcindo Guanabara, de Evaristo da Veiga e dos Poetas - Treze de Maio e Senador Dantas entretanto não sobem ladeira nem pegam bondinho.