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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta a um Amigo do Bar Flora e sua Oferta Imperdível

Meu Caro Amigo,
Aceitei a tua provocação e fui, depois de ler a nota na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, até o Bar Flora, na Rua da Carioca, 16. Eram quatro e pouco da tarde. Conversei quase dez minutos com 
D. Idalina, ela a explicar que estão mesmo cansados - ela e Seu Gomes - e que o negócio em que estão não rende como antes. Decerto passarão o ponto, e virá alguém para investir e - queira Deus - manter a alma do local, renovar-lhe o corpo cansado e a bela marca de 130 anos. Reunindo no local, quem sabe, um Café ou um restaurante e, é claro e desejável, a Mercearia. Lá, lugar coalhado de gente simpatica - alguns jalecos surrados tiveram peso zero em relação ao atendimento cortês -, atendido por dois vendedores; um, à entrada, outro, à saída. A conversa com D. Idalina foi junto ao guichê do caixa. Tive enormes vontade, timidez e constrangimento de tirar com D. Idalina, Seu Gomes e funcionários uma foto para a História. Mas seria a minha história e esta está garantida pela lata de cookies que trouxe comigo, que com certeza acabam neste final de semana. O Bar (mercearia, para ser preciso) viverá sempre comigo, ao lado de D. Idalina e do embrulho típico, com barbante e tudo, que amarram cada vez mais o Centro do Rio no coração deste teu amigo carioca.
Mais uma viagem no tempo! Não sei onde vou parar, qualquer dia me perco e não haverá nave capaz de fazer o resgate, de me trazer de volta. A não ser que viaje para o futuro onde seja possível que novo e antigo convivam em harmonia.
Em tempo: Passe lá um dia, e não se incomode se o ar parecer um pouco decadente no local. Isso passa em poucos segundos.

Você está no início dos anos 60, D. Idalina abrindo a casa. Numa calçada próxima da Rua Uruguaiana meu pai caminha de mãos dadas comigo e me mostra, eu aos seis, sete anos, a loja de tecidos onde trabalha...
Portanto, entre, tome uma Coca gelada e compre uma caixa de cookies, ou um vinho do Porto, uns doces, ou umas castanhas. Observe os armários, o imenso pé-direito da casa. Se quiser bacalhau, lembro do aviso à entrada: ele está bem guardado dentro de casa. Expostas ao burburinho da rua da Carioca, só algumas poucas postas. Há muito mais lá, um pouco de tudo, você pode sair de lá carregado como se fosse ao supermercado. Mas como? Como concorrer, D. Idalina, com os gigamegahipersuper ou mesmo mercados de hoje? A História conta 46 anos de D. Idalina no local, e 65 do Seu Gomes, a quem observei por alguns minutos com respeito e reverência. Oitenta e poucos anos, a maior parte naquele lugar, o seu emprego único. Por favor, meu amigo, leia este adjetivo - único - além do sentido óbvio que sugere.
Lembrei que antes de falarmos, hoje pela manhã, sobre o Bar Flora, você me falou do vinho EA (da Fundação Eugênio de Almeida), oferta imperdível por R$ 23 nos supermercados Mundial. Mas entendo que você, nós, os amigos, o Ancelmo Gois, os leitores de O Globo e o Rio de Janeiro inteiro deveriam ir até o Bar Flora comprar ao menos uma garrafinha de vinho pagando um pouco mais caro. Ou vamos todos só pra ver os olhos de D. Idalina. Abraços, Augusto

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bilhete Único

Como um raio, arrancou da rua da Quitanda, atravessando a Av. Presidente Vargas, próximo da Candelária. Parece mesmo ter trespassado a igreja, tão rápido se pôs do outro lado de sua calçada. A pressa era tanta que não pôde ver o ônibus vindo da rua Primeiro de Março. A freada foi brusca, e não teve jeito: o homem caiu desacordado. Desceram do Gávea-Central o motorista, os poucos passageiros que havia àquela hora; juntaram-se ao redor um PM meio magro e meia dúzia de passantes, com olhos gordos de curiosidade. Puseram o homem no ônibus, foram com ele até o Hospital Sousa Aguiar o motorista e mais três - dois rapazes e uma moça que estavam no ônibus, que prometeram ao policial se apresentar como testemunhas. Sabe-se lá do quê.

O homem desceu do ônibus. Meio grogue, foi recebido pelo guarda de plantão, um PM meio gordo que estava louco pra registrar uma ocorrência:
- O que houve? Se está bêbado, vá se curar de outra forma que a Emergência tá cheia.
- Não estou bêbado e nem sei o que houve. Só me lembro de ter me benzido quando passei por dentro da igreja e do 174 lambendo meu ombro direito.
- O Sr. parece bem...em relação ao que se vê nesta Emergência. Acho que vai pro final da fila.
- Eu fui o último a chegar, já estou no final da fila e no meio de uma dor de cabeça.
- Calma, Seu Guarda! O Sr. é PM ou é médico? , interfere uma das testemunhas.
- Tá bom, o Sr. vá até o balcão, vão preencher uma ficha; depois, vão lhe chamar pelo nome, mandar pra uma triagem...
O homem vai até o balcão.
- Nome?
- Agnaldo. Agnaldo Timóteo.
- Isso aqui é um hospital, o senhor parece bêbado e se apresenta com nome de cantor. Tá de sacanagem, quer que eu chame o guarda ou ou que...?
- O meu nome é esse mesmo. Minha mãe que quis, admirava o cantor; fazer o que? Eu já disse que não estou bêbado; só uma dorzinha de cabeça. Mas se fizerem questão eu vou ali na Rua de Santana e fico.
- Fica o que?
- Bêbado!
- OK. O que o Sr. está sentindo?
- Nada. O motorista é que me trouxe até aqui, eu despertei dentro do ônibus, dei sinal de parada, mas ele e os três ali não me deixaram descer na Central. Estava indo pegar o trem pro Engenhão.
- O Sr. parece confuso, aguarde lhe chamarem pelo nome.

A essa altura, Agnaldo compreendia mesmo muito pouco do que acontecia à sua volta. Sequer acreditavam que ele se chamava Agnaldo - a carteira fora perdida, ele não sabe onde. Ele sentia-se meio zonzo, mas bem. Queria ir embora, mas, depois de ter preenchida a ficha de pré-atendimento, nem a recepcionista, nem o motorista, os três e nem mesmo o guarda o deixavam sair dali sem ser atendido. Pior pra ele: como o estado geral parecia bom, a prioridade de atendimento o faria esperar ali pelo menos uma hora. Logo hoje, quarta-feira. Perderia o jogo do seu Botafogo no Engenhão, estádio que visitaria pela primeira vez.
Lembrou-se de ligar para um amigo, o Jerry, mas cadê o celular? A moça, que o acompanhara junto do motorista e dos dois passageiros acudiu.
- Obrigado, disse à moça, ao mesmo tempo que digitava o número do celular do amigo.
- Alô, Jerry falando.
- Jerry, é Agnaldo, vê se pode me ajudar. Estou aqui no Sousa Aguiar e...
- Que trote mais improvável! Esse não é o número do Agnaldo, e ele me disse que estaria a caminho do Engenhão a essa hora...
- Calma, Jerry. Sou eu mesmo. Nem sei se fui atropelado pelo 174, mas o motorista e mais três pessoas - acho que eram passageiros, e que eu não sei bem porque ainda estão aqui - me troxeram até o hospital. O meu Oi e a carteira se perderam eu sei lá onde, depois de...
- Tá bom, Agnaldo, agora reconheço que é mesmo a tua voz. Só mesmo você e quem trabalha lá é que chamam celular de Oi.
O fato é que Jerry reconheceu Agnaldo, mas em sua cabeça a ideia do trote crescia. Afinal, desde aquela tragédia que virou filme, a linha 174 não existia mais. Improvável Agnaldo perder a carteira, a qual trazia sempre consigo - com documentos, cartões de crédito e de visita; tudo em excesso; um talão de cheques e notas quase todas de 2 Reais. A cada três minutos, Agnaldo tinha o costume de checar se a carteira estava mesmo no bolso. E na remota hipótese de ter mesmo caído abriria um buraco no piso.
- Jerry, você me ouve?
- Claro, diga lá...o Fogão vence hoje?
- Cara, que Fogão... ainda passei no Bar Monteiro, tomei dois chopps com o Wanderley - você lembra dele, não é? - mas ele desistiu de ir ao Engenhão. Disse que pega cedo no batente amanhã, mas acho que ia pegar alguma coisa ainda esta noite.
- Agnaldo! Não existe mais Bar Monteiro, são quase sete e meia da noite, eu ainda aqui...
- Espera, Jerry, vou ter de devolver o Oi da moça...Você me pega aqui, estou meio desorientado.
- Eu te encontro é pra gente tomar um chopp. Se você está mesmo no Sousa Aguiar, pega o 438, ou um táxi, e vem até o Jardim Botânico. Você escolhe o lugar, mas tem que ser por aqui. Eu estou morto de cansado e quero estar perto de casa. Um só, pra gente matar a saudade do próximo mês; vou de férias com a Silvinha amanhã, lembra? Eu mereço.
- A ideia é boa. Se o guarda, o motorista, os três, a recepcionista, o pessoal da triagem, o enfermeiro que me olha torto e o doutor que nem me viu ainda me liberarem, eu vou até aí. Isso vai demorar pelo menos umas duas horas, mas hoje, último dia antes das férias, você não sai daí antes das nove...Podemos marcar no O'Phillipe.
- Cara, deixa de sacanagem que não tem mais O'Phillipe. Agora lá é o Belmonte do Jardim Botânico. Fomos lá há uns trinta dias, no final daquele congresso de poucas novidades, tá lembrado? Te espero lá às nove e meia.
- Se eu escapar...

Agnaldo devolve o celular à moça. Agradece e se afasta, não antes sem perceber que Roberto, o motorista, e a moça continuam a conversar em voz baixa e sem parar - o que já observara antes. Folheiam juntos um livro de capa escura.
O motorista parece ter 35 anos. Branco, de bigode, cabelos lisos e curtos, barba feita, uniforme da empresa, gravata levemente afrouxada. Calmo, seguro, ônibus estacionado na porta do hospital, sem se preocupar nem com a hora nem com o 174, duas rodas sobre a calçada do Campo de Santana. Pergunta se Agnaldo precisa de alguma coisa. Este agradece.
A moça do celular é mais jovem. Só quando ela levanta a cabeça pra receber o Oi das mãos de Agnaldo, ele repara como é linda. Não se lembra de tê-la visto no ônibus, quando acordou saltando ele e o banco traseiro, com dois passageiros pedindo-lhe calma.
- Vou descer aqui. Abre aí, Piloto, por favor.
- Calma, rapaz. Vou te levar pro hospital.
Os olhos da moça são cheios e castanhos, o cabelo é em cachos. A blusa é comportada, mas revela o recheio no imaginário de Agnaldo. Combina com a saia, quase colegial, que deixa ver e esconde pernas altas de uma morenice capaz de aturdir qualquer Wanderley. Agnaldo pergunta aos dois porque ainda estão ali - 'Não é preciso', pensa. Antes que ela possa responder, ouve-se chamar um nome, procurado por olhos descrentes dos que estavam na sala de espera:
- Sr. Agnaldo Timóteo!
- Sou eu!
Agnaldo é atendido numa pequena sala. O médico tem pressa. Pede que Agnaldo lhe conte:
- O que houve?
- Ouço perfeitamente, Doutor.
Impaciente, o médico repete a pergunta:
- O que aconteceu, Seu Agnaldo, que o fez vir até aqui?
Agnaldo conta só o que sabe ou o que lembra. Refaz para o doutor o roteiro que o fez sair do mesmo prédio em que trabalha o Jerry, na rua da Assembléia, contornar a Primeiro de Março, comprar um livro na Livraria da Travessa da rua 7 de setembro, virar à direita na rua da Quitanda, tomar dois chopps (ou foram quatro?) com o Wanderley no Bar Monteiro, chegar à Candelária, atravessar a igreja, o 174 quase entrando pelo seu olho direito...
- O Sr. foi atropelado? Ficou desacordado? Tem algum ferimento, hematoma? A cabeça dói? O corpo dói? Onde? O Sr. está alcoolizado? Tem antecedentes de doenças graves na família? É hipertenso? Tem diabetes? Toma alguma medicação?
- Já respondi quase tudo isso na ficha que preenchi ao chegar. O Doutor não leu?
- Sim, está aqui, mas...
- O Doutor tem que confirmar, né? Que nem call center...
O médico fez um exame clínico correto. Mediu pressão, auscultou coração, fez Agnaldo quase se contorcer pra checar a coluna, apalpou-lhe o abdomen, fez Agnaldo andar de olhos fechados. Viu-lhe a cor da língua e da pele. E as cores nos olhos. A sensibilidade de mãos, pés, extremidades. Sentiu-lhe a respiração. O pulmão. Tudo parecia bem. Estava bem, ao exame clínico. Chamou o enfermeiro, que trouxe um copo d'água e dipirona. 'Melhor não'. Fez com que bebesse apenas a água. Recomendou um Gatorade. Suspeitava de uma leve desidratação, nada sério que o isotônico não resolvesse. Aconselhou-o a ter atenção às próximas 24 horas, que voltasse caso não se sentisse bem. Recomendou-lhe que depois fosse a  uma UPA ou ao seu médico particular, fazer um checkup. Agnaldo agradeceu e tranquilizou o doutor:
- Vou estar com o meu médico mais rápido que o doutor pode imaginar. Prometo.

Liberado, menos confuso e mais feliz, Agnaldo retornou pelo caminho que fizera percebendo que seus quatro acompanhantes não estavam mais lá. Soube pelo guarda que dois tinham assinado a ocorrência pra que não houvesse problemas para o motorista, e que se tinham ido embora pouco antes dele devolver o Oi à moça.
Os outros dois o aguardavam lá fora,  já dentro do ônibus. O motorista convidou:
- Pode subir, vamos levar você em casa, ou seja lá pra onde você for. Você está bem?
- Brincadeira tem hora. O que vocês dois estão fazendo aqui até agora?
- Reconstruindo a vida.
- Como assim?
- Ônibus velho, reclamei com o fiscal, liguei pra empresa, isso antes de sair do ponto, em São Conrado. Ninguém deu bola. Tão velho que o letreiro ainda guarda no carretel uma linha que não existe mais, a 174. Fui mexer nele e ficou lá: 174 - Central. Nem percebi. Só estranhei que, em plena hora do rush, pouca gente pegasse o ônibus. Ainda levei um pito de outro fiscal na Praia de Botafogo que estranhou o ônibus quase vazio sem perceber o letreiro. 'Ta correndo, é?'. Eu estava, sim, mas não era do que ele estava pensando.
- Tá bom, mas o que isso tem a ver com reconstruir a vida?
- Quando saí da Primeiro de Março, colado junto do Centro Cultural Banco do Brasil, dobrei com todo o cuidado - quase 90 graus à esquerda -, próximo da Candelária. Meio da pista, sinal aberto e você ignorou, aparecendo inteiro na minha frente. Em poucos segundos, depois de pisar com tudo no freio do velho ônibus, lembrei do quanto xinguei o fiscal, a empresa e seu donos, o mecânico, os passageiros, o outro fiscal, o mundo. Tudo isso, só porque me faltava coragem.
- Reconstruir a vida, falta de coragem...? Espera aí, acho que preciso voltar pro hospital.
- Fica calmo que te explico...O velho ônibus salvou você e você salvou a minha vida. Os bancos estão riscados; alguns, estão soltos e - disse, apontando para a moça do celular - ela, a cobradora, é alta e quase não cabe nesse banco duro e velho. A suspensão morde os buracos do asfalto, os sinais de parada só funcionam do lado esquerdo.
- Essa moça é cobradora?
- Quando vi que você apenas tinha caído sem ser tocado pelo ônibus, agradeci ao mecânico, à empresa e seus donos, aos fiscais, a Deus e ao mundo, porque algum deles havia cuidado do freio. Jurei, naquele momento, que levaria você e os dois passageiros até a porta de casa esta noite, a morena... E o ônibus, pra dormir na porta da minha casa. Ninguém mais vai falar mal do 174.
- Tá bom, eu vou pro Jardim Botânico encontrar um amigo que sai de férias amanhã
- Pode subir que eu te levo lá. Depois levo a moça. E meu nome é Roberto ('eu já sabia, o nome dele aparece na ficha do hospital, como responsável pela minha pele').
Às 21h30, pontualmente, Agnaldo e Jerry se encontraram no Belmonte.
Ao ver o ônibus encostar, e descerem dele o motorista e a cobradora morena fazendo a entrega do Agnaldo, Jerry começou a acreditar na história, cujos detalhes sorveu junto da meia dúzia de chopps que tomaria no Belmonte.
- Oi, Jerry, o doutor disse que eu estou bem, e mandou eu procurar você.
- Tá bom, vai daqui a 20 dias lá no consultório que a gente faz um checkup. Aqui mesmo no bar, prescrevo os exames de rotina. E vê se não faz bobagem enquanto eu estou de férias.
Agnaldo havia confundido os filés - o do Filé de Ouro, que fica na mesma rua, um pouco mais à frente, e o do Belmonte, que, no mesmo lugar onde esteve o restaurante O'Phillipe, respeita a tradição de servir bem da velha casa.
Agnaldo observava a morena e o motorista se afastarem, agradecido. Correu até eles, antes que o motorista desse a partida no velho 174:
- Ia me esquecendo, disse Roberto. Tem um livro de capa escura que aquel guarda magrela jogou dentro do ônibus. Disse que estava junto de você no asfalto da avenida, mas... sei não, você não iria pro Engenhão levando um livro de 600 páginas, né? Pega teu celular e tua carteira lá no fundo do ônibus. Devem ter caído do bolso quando te deitamos lá e a Rita percebeu quando voltamos pro ônibus.
- Vou pegar...pronto! Obrigado. Agora, sim, minha vida está salva. Mas corri até aqui pra te perguntar: a que coragem você se referia? Confesso que ainda não entendi muito bem...
- Pois é, lembra quando você devolveu o celular pra Rita? Que ela e eu estávamos conversando pelos cotovelos? Tinha que ser ali. Falei pra ela ligar pro cara, pra dizer que não ia se encontrar com ele, que o ônibus e eu tinham dado problema. Depois daquela freada que salvou a sua e a minha vida, eu não tinha mais medo de nada. 
- Que cara? Que medo?
- O de confessar meu amor por essa morena e ela achar que eu fosse só mais um Wanderley na vida dela. O medo eu já tinha perdido. E a coragem eu achei nesse livro.

Depois de beber meia dúzia de chopps, Dr. Jerry prometeu a Agnaldo nunca mais duvidar dos telefonemas dele. Ficaria na dúvida se o Monteiro havia mesmo fechado as portas se Agnaldo não tivesse se lembrado, ainda naquela noite, que parou mesmo foi num bar próximo, praguejando contra o fechamento do Monteiro e uma loja do rival Flamengo quase do lado. 'Sem Bar Monteiro e com Flamengo, vou-me embora dessa Quitanda'.
O amigo Jerry pagou a conta do Belmonte. Caminharam ambos até o prédio na rua Pacheco Leão, onde Jerry mora com Silvinha e dois filhos. Embriagado por três tulipas de Gatorade, Agnaldo despediu-se de Jerry e desejou-lhe 'Boa viagem'. Atravessou a rua novamente e ia tomar um taxi, quando percebeu o 438 chegando. Tomou o ônibus em direção a Vila Isabel, onde mora sozinho mas não por muito tempo; criara coragem naquela noite. Ao passar em frente ao Parque Lage, notou o 174 parado, com faróis e lanternas acesos. A linha recomeça amanhã, um pouco mais tarde e já a alguns quilômetros do ponto de partida. A promessa de levar o ônibus e a morena pra casa ficou pro dia seguinte. Roberto relê a página 425, arrancada do livro de Agnaldo (1) :
...
Contudo, contudo,
Conseguiste
Prender-me um pouco o coração.
É um coração triste
E não
Se entende com tudo
Nem tem jeito
Para se fazer amar
Ou para o imaginar,
Salvo quando
Teu olhar
Teimosamente brando
Me fazia saltar
O coração dentro do peito
...

Roberto já mora com Rita a partir desta noite.

(1) Poesia 1931-1935 e não datada / Fernando Pessoa - ed.: Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine; São Paulo, Companhia das Letras - 2009.