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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Simon Bolivar no Largo do Machado

Tantos puxadinhos levando lojas, bares e restaurantes para as calçadas e o tal choque de ordem da nossa Prefeitura foi logo implicar com o Café do Largo. Deu matéria no jornal O Globo, repique e o escambau, até que o Café fosse proibido de pôr as mesinhas na calçada. Tá certo!? Enquanto isso, tente dar uma volta pelo perímetro do Largo do Machado sem ser atacado por pelo menos uma dúzia de panfletários de ocasião. Sim, distribuem-se folhetinhos do crédito fácil, do comércio nem sempre local, de políticos (os santinhos, como são chamados - os folhetos, não os candidatos), de sessões espíritas, de compradores de ouro... Cá entre nós e com todo o respeito, um porre. O Largo tem sido ocupado periodicamente por feira de livros, e ainda por uma feirinha cujo foco ainda não identifiquei - junta artesanato (?), comidinhas, roupas, acessórios... a Feira de Ipanema que se cuide. Esconde, quando acontece, as barracas de flores e suas cores que deixam o Largo mais bonito, com a Igreja de N.S. da Glória ao fundo. Há também os camelôs, os meninos de rua, os homens ou mulheres-sanduíche, os performers que se fazem de estátua viva e até um roqueiro solitário e seu violão (ou será guitarra?) e cuja música ainda não consegui decifrar - mas ele tem algo de Mick Jagger, de Serguei... mas acho que nem ele sabe. Também há na praça os ciganos; encontram-se lá, sempre bem vestidos e movimentam-se quase sempre em grupo. Os jovens que saem do Colégio Amaro Cavalcanti; alguns deles, casais óbvios, se enredam com abraços e beijos juvenis no Largo. Há os pontos de ônibus que desafiam a lógica do espaço que deveria ser dado ao corredor que liga o Catete ao Túnel Rebouças. Há as árvores frondosas cuja copa serve de abrigo (e os troncos, ao xixi eventual) a motoristas e cobradores e de estacionamento de triciclos e bicicletas. Saiu dali, não sei até quando, o som (ao vivo, inclusive) da flauta doce que quase todos os dias e por anos anunciava a venda de CDs de músicas de origem ou ao estilo bolivianos. A quem interessar, há novos pontos de venda: Av. Presidente Vargas, esquina com Rua da Conceição, sentido Zona Norte; ou no Castelo - Av. Nilo Peçanha, esquina com Av. Rio Branco. Que me perdoe Evo Morales, mas passo a pelo menos duzentos metros dessas flautas doces. Voltemos ao Largo: tem cabine da PM, ou trailer - que quando está por ali deixa comportados os meninos de rua e ariscos os camelôs. Também tem gente pedindo - quase nunca é verdade, "um dinheirinho pra completar a condução, que peguei o ônibus errado, vim visitar uma prima doente...serve qualquer moeda". Só com essas coisas já seria possível montar um programa pra mais de meio dia num único ponto da terra carioca - a praça é do povo! E terça-feira ainda tem a feira na praça entre as ruas Machado de Assis e Dois de Dezembro, atrás da galeria do cinema São Luiz. É programa, sim. Driblando tudo o que incomoda, e às vezes atrai, o Largo e seu entorno têm cinema e um capuccino criminoso de bom na galeria São Luiz, o quibe e a esfiha do árabe da galeria Condor; a boa comida, o chope pra lá de bem tirado e o preço justo do Restaurante 184 da Rua Bento Lisboa (entrada pelo Largo do Machado); o sorvete Itália já na Rua do Catete, próximo à Dois de dezembro. Tem o Oi Futuro, nesta mesma rua, com programação cultural de primeira e quase tudo grátis. Na mesma calçada, vire à direita, na Rua do Pinheiro, e almoce no Nanquim, um quilo saboroso e saudável. Tem livraria perto do Largo, pequenas galerias que escondem (ou revelam) costureiras, sapatarias, relojoeiros (procure pelo Valmiro, na pequena galeria entre as ruas Machado de Assis e Almirante Tamandaré). Tem ainda o Tacacá do Norte, na Barão do Flamengo - prove a casquinha de caranguejo com Cerpa gelada. Quer uma das melhores cartas de cerveja da cidade? Avance um pouco mais e chegue no Herr Braüer. E já que está nessa rua, encontre o Salão Simon Bolivar. Procure por lá o Antonio (cirurgião capilar, no bom sentido), o Seu Armindo... Peça, que eles capricham e você ainda chega em casa e diz pra mulher ou pra filha que foi no Werner ou em qualquer outro dos W que fazem as cabeças mais chiques da cidade. Elas vão desconfiar, mas mantenha-se firme. Confesso que ainda não tive a coragem de perguntar porque um salão de barbeiro que tem português, carioca, nordestino... se chama Simon Bolivar. Lula e Hugo Chávez certamente desconhecem a homenagem. Fica a sugestão que venham, ambos, prestigiar o bloco Cachorro Cansado, que sai duas vezes no carnaval - a concentração é na mesma rua, esquina com a Senador Vergueiro, e o patrocínio do governo dito bolivariano do dito Hugo seria benvindo. Começariam pelo almoço no restaurante japonês, o Kioto, na rua Min. Tavares de Lira; afinal, os dois mexem bem os pauzinhos. Mas, na escada de acesso, com certeza parariam um andar antes, nos bilhares (Bola de Cristal Bilhar e Bar) - pra jogar uma sinuquinha, pra tomar uma(s)...que ninguém é de ferro. Na saída, já que o mundo vai estar rodando, iriam na direção para contornar o Largo, para depois então chegar ao Cachorro Cansado. Ou ao Cachorro, cansados de ver o mundo rodar, mas sem conseguir pegá-lo pra si, como querem um e outro. Para reduzir este risco, no caminho haveria tempo pro cafezinho, e pra que conhecessem a simpatia, a qualidade de atendimento e os sabores do Café do Largo, na esquina com a Rua Min. Tavares de Lira. Como é da índole chavista, o Presidente venezuelano ordenaria ou, orientado pelo democrata Lula, intercederiam ambos junto ao nosso Prefeito para que este concedesse permitir umas cadeirinhas sob o toldo do Café do Largo. Ou umas espreguiçadeiras, quem sabe.