Pesquisar este blog

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Design nascido em Viseu

É tempo de Festas e - como não lembrar? - dos bolinhos de bacalhau feitos por minha mãe com o design próprio da massa na palma da mão, dedos fechados na direção do pulso. Os dito cujos - assombrem-se - tinham o ingrediente indispensável (bacalhau) e, depois de fritos, tinham a aparência dourada, tal e qual as terras do Douro, tal e qual o ouro daquele coração luso. Lembrei-me dos bolinhos de bacalhau feitos por D. Henriqueta no restaurante de mesmo nome, na rua Francisco Dutra, no finalzinho de Icaraí. Mas que não está mais lá. Bem parecidos, talvez ainda seja possível encontrá-los na Gruta de Santo Antônio, restaurante de D. Henriqueta na Ponta de Areia, ou Portugal Pequeno, na zona portuária de Niterói. Passada a ponte Rio-Niterói, a rua Feliciano Sodré deixando já para trás a Ponta de Areia, chego à Visconde do Rio Branco, que se estende desde o Mercado do Peixe até depois do Plaza Shopping, em Niterói. Logo na primeira esquina - com rua Dr. Fróes da Cruz - encontro o Império do Bacalhau, onde provo seus honestos e saborosos bolinhos de bacalhau. Que nada devem aos do Caneco Gelado do Mário, vizinho de bairro. Pequenas bolas de golfe, quentinhos, crocantes e a acompanhá-los um bom azeite português sem miséria nenhuma. Seu Altino, português do Distrito de Viseu, derrama bom atendimento e simpatia. Peço o cardápio, mas como encarar um dos diversos pratos de bacalhau se estou sozinho? Quase peço socorro a algum amigo de Niterói, mas eram quase três horas da tarde e quem venceu naquele dia foi o Mazembe - sapecando 2x0 no Inter de Porto Alegre - e um contra-filé executivo. O bacalhau, exceto o dos bolinhos, fica pra outro dia. O lugar é simples e junta bar, restaurante, adega. Tem música ao vivo às sextas-feiras, e espaço de sobra. Há o vinho da casa e, é claro, vinhos portugueses. A cerveja é servida bem gelada, que o calor era intenso. Os ventiladores fazem bem a função de nos tirar do calor do Senegal. A TV via satélite falhou e assisti com chuviscos na tela da TV aberta o Mazembe ganhar do Inter por 2x0. Para cada gol, uma Antarctica Original. Ajudaram-me a escapar do calor senegalês, mas os gaúchos não conseguiram se livrar do calor do ataque do time do Congo. De volta ao Rio, de novo pela Feliciano Sodré, vejo a placa indicando Portugal Pequeno, lembrete pra me fazer voltar daqui a algumas semanas, tomar o caminho do bairro e revisitar o design daqueles bolinhos pela forma que D. Henriqueta não deve ter abandonado. Seja como for, o apetite foi saciado. E apesar do design mais arredondado dos bolinhos do Império, o Seu Altino também é da escola de Viseu.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Paralelas que se encontram

Alguém aí conhece a Poetas da Calçada? Ou já foi ao Kuwait? Ou já topou com Francisco Alves na travessa em pleno século XXI? Já comeu purê cor de rosa? Conhece Tricanas da Beira? Periquita?
Calma, que ainda estou fora da nave.
O forum global carioca é evento constante na cena carioca, seja no SAARA ou em Copacabana, mas esta edição ocorre entre paralelas. Já disse que o mundo cabe numa rua, e cabe, mesmo num estreito. Entre as ruas Treze de Maio e Senador Dantas. Ruas que por si só têm suas atrações. Ambas escorrem gente, rios de gente em águas de mão dupla. A primeira é língua que busca, de um lado, a brisa baiana da Guanabara. Do outro, o ar no Largo da Carioca. Corre o risco de secar porque depois dele, em dias como o de hoje, o duto da rua Uruguaiana suga-lhe a brisa e devolve calor de compressor. E o verão ainda não chegou. Não? Passa, num sentido ou no outro, por boas tentações de arte, cultura, arquitetura e fé. Todos, ou quase, juntos, em cada um dos lugares. Afaga o prédio onde não é mais o Cordão do Bola Preta, mas de onde ainda saiu seu bloco, nosso bloco, no último carnaval. E lá estará no próximo. Cola o rosto ao Theatro Municipal, centenário renovado; flerta com o Caixa Cultural, na esquina com Almirante Barroso. Na mesma esquina, admira o estilo neomanuelino do Liceu Literário Português. Olha com fé para o Convento de Santo Antônio, já no Largo mas ao alcance dos olhos da Treze de Maio. No sentido contrário, de volta ao Bola Preta, a rua perde o nome pra Praça Floriano. Faz mal não, todo mundo chama de Cinelândia. Ainda se chama Treze de Maio e é possível aos olhos ver a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural da Justiça Federal, o Museu Nacional de Belas Artes - ainda que a rua torça o pescoço pra ver um deles. A outra rua, a tal paralela que eu já ia perdendo a chance de encontrar neste espaço finito é a Senador Dantas. Também tem história. Pena que há alguns prédios abandonados ao destino que abriga mendigos, camelôs, desocupados. Mesmo destino que abriga o blogueiro. Quem tem 50 anos se lembra do Cine Vitória. Ainda é possível enxergá-lo no meio do cinza da poeira e do cimento, e do cáqui dos papelões - camas ou displays conforme a ocasião. A primeira esquina nos entrega o Passeio Público, seu jardim e o chafariz de Mestre Valentim. O imponente prédio que já foi o Hotel Serrador, a saudade do relógio da Mesbla, companheiros de calçada da Senador Dantas. A segunda, na contramão da rua, à esquerda, com a rua Evaristo da Veiga, flerta com a Lapa, os Arcos novamente brancos. A subidinha antes da última é o acesso ao bondinho de Santa Teresa. Catedral por perto, e as catedrais da Petrobras, do BNDES, da Caixa Econômica Federal, idem. Tudo perto de território chileno e paraguaio - Avenidas Chile e República do Paraguai.
Voltemos aos Poetas, na verdade à Travessa dos Poetas da Calçada, que se estreita entre as ruas Senador Dantas e Treze de Maio. É lá que se juntam o vinho Periquita, algumas mesas com a garrafa, e o azeite Tricanas da Beira em todas elas - portugueses, com certeza. Mais o Francisco Alves, nome de cantor das antigas, garçon do restaurante Al Kwait, tão atencioso e simpático que me sugeriu (e me convenceu a provar) um par de kaftas acompanhado de um purê de beterraba, o tal purê cor de rosa, ambos consumidos pela fome das três da tarde, honestíssimos. No cenário do restaurante, um democrático balcão onde se pode pedir a bebida, as esfihas e "o melhor quibe do Rio" - assim também chamado nos restaurantes típicos e nos seus balcões do SAARA, na galeria Condor no Largo do Machado, na Galeria Menescal e no Amir, ambos em Copacabana...e provavelmente em meia dúzia de lugares cuja qualidade da oferta obriga a empate técnico. Meu voto é pra galeria Condor, mas a culpa é da esfiha, do suco e do cara do balcão que chama todos de primo, primo. Não notei no Al Kwait garçon ao qual coubesse tratamento diferente de Senhor. Nosso Francisco Alves, chamado Chiquinho, talvez seja um dos poucos por lá sem a autoridade dos cabelos grisalhos.  A proposta do Chiquinho é aparecer de novo por lá, numa quarta-feira, pra provar o Carneiro. Depois, quem sabe, pegar o bondinho, ir até Santa Teresa e tomar a saideira no Bar do Arnaudo. Mas esta proposta é minha. Paralelas que se encontram felizes - pelos braços de Alcindo Guanabara, de Evaristo da Veiga e dos Poetas - Treze de Maio e Senador Dantas entretanto não sobem ladeira nem pegam bondinho.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta a um Amigo do Bar Flora e sua Oferta Imperdível

Meu Caro Amigo,
Aceitei a tua provocação e fui, depois de ler a nota na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, até o Bar Flora, na Rua da Carioca, 16. Eram quatro e pouco da tarde. Conversei quase dez minutos com 
D. Idalina, ela a explicar que estão mesmo cansados - ela e Seu Gomes - e que o negócio em que estão não rende como antes. Decerto passarão o ponto, e virá alguém para investir e - queira Deus - manter a alma do local, renovar-lhe o corpo cansado e a bela marca de 130 anos. Reunindo no local, quem sabe, um Café ou um restaurante e, é claro e desejável, a Mercearia. Lá, lugar coalhado de gente simpatica - alguns jalecos surrados tiveram peso zero em relação ao atendimento cortês -, atendido por dois vendedores; um, à entrada, outro, à saída. A conversa com D. Idalina foi junto ao guichê do caixa. Tive enormes vontade, timidez e constrangimento de tirar com D. Idalina, Seu Gomes e funcionários uma foto para a História. Mas seria a minha história e esta está garantida pela lata de cookies que trouxe comigo, que com certeza acabam neste final de semana. O Bar (mercearia, para ser preciso) viverá sempre comigo, ao lado de D. Idalina e do embrulho típico, com barbante e tudo, que amarram cada vez mais o Centro do Rio no coração deste teu amigo carioca.
Mais uma viagem no tempo! Não sei onde vou parar, qualquer dia me perco e não haverá nave capaz de fazer o resgate, de me trazer de volta. A não ser que viaje para o futuro onde seja possível que novo e antigo convivam em harmonia.
Em tempo: Passe lá um dia, e não se incomode se o ar parecer um pouco decadente no local. Isso passa em poucos segundos.

Você está no início dos anos 60, D. Idalina abrindo a casa. Numa calçada próxima da Rua Uruguaiana meu pai caminha de mãos dadas comigo e me mostra, eu aos seis, sete anos, a loja de tecidos onde trabalha...
Portanto, entre, tome uma Coca gelada e compre uma caixa de cookies, ou um vinho do Porto, uns doces, ou umas castanhas. Observe os armários, o imenso pé-direito da casa. Se quiser bacalhau, lembro do aviso à entrada: ele está bem guardado dentro de casa. Expostas ao burburinho da rua da Carioca, só algumas poucas postas. Há muito mais lá, um pouco de tudo, você pode sair de lá carregado como se fosse ao supermercado. Mas como? Como concorrer, D. Idalina, com os gigamegahipersuper ou mesmo mercados de hoje? A História conta 46 anos de D. Idalina no local, e 65 do Seu Gomes, a quem observei por alguns minutos com respeito e reverência. Oitenta e poucos anos, a maior parte naquele lugar, o seu emprego único. Por favor, meu amigo, leia este adjetivo - único - além do sentido óbvio que sugere.
Lembrei que antes de falarmos, hoje pela manhã, sobre o Bar Flora, você me falou do vinho EA (da Fundação Eugênio de Almeida), oferta imperdível por R$ 23 nos supermercados Mundial. Mas entendo que você, nós, os amigos, o Ancelmo Gois, os leitores de O Globo e o Rio de Janeiro inteiro deveriam ir até o Bar Flora comprar ao menos uma garrafinha de vinho pagando um pouco mais caro. Ou vamos todos só pra ver os olhos de D. Idalina. Abraços, Augusto

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Bilhete Único

Como um raio, arrancou da rua da Quitanda, atravessando a Av. Presidente Vargas, próximo da Candelária. Parece mesmo ter trespassado a igreja, tão rápido se pôs do outro lado de sua calçada. A pressa era tanta que não pôde ver o ônibus vindo da rua Primeiro de Março. A freada foi brusca, e não teve jeito: o homem caiu desacordado. Desceram do Gávea-Central o motorista, os poucos passageiros que havia àquela hora; juntaram-se ao redor um PM meio magro e meia dúzia de passantes, com olhos gordos de curiosidade. Puseram o homem no ônibus, foram com ele até o Hospital Sousa Aguiar o motorista e mais três - dois rapazes e uma moça que estavam no ônibus, que prometeram ao policial se apresentar como testemunhas. Sabe-se lá do quê.

O homem desceu do ônibus. Meio grogue, foi recebido pelo guarda de plantão, um PM meio gordo que estava louco pra registrar uma ocorrência:
- O que houve? Se está bêbado, vá se curar de outra forma que a Emergência tá cheia.
- Não estou bêbado e nem sei o que houve. Só me lembro de ter me benzido quando passei por dentro da igreja e do 174 lambendo meu ombro direito.
- O Sr. parece bem...em relação ao que se vê nesta Emergência. Acho que vai pro final da fila.
- Eu fui o último a chegar, já estou no final da fila e no meio de uma dor de cabeça.
- Calma, Seu Guarda! O Sr. é PM ou é médico? , interfere uma das testemunhas.
- Tá bom, o Sr. vá até o balcão, vão preencher uma ficha; depois, vão lhe chamar pelo nome, mandar pra uma triagem...
O homem vai até o balcão.
- Nome?
- Agnaldo. Agnaldo Timóteo.
- Isso aqui é um hospital, o senhor parece bêbado e se apresenta com nome de cantor. Tá de sacanagem, quer que eu chame o guarda ou ou que...?
- O meu nome é esse mesmo. Minha mãe que quis, admirava o cantor; fazer o que? Eu já disse que não estou bêbado; só uma dorzinha de cabeça. Mas se fizerem questão eu vou ali na Rua de Santana e fico.
- Fica o que?
- Bêbado!
- OK. O que o Sr. está sentindo?
- Nada. O motorista é que me trouxe até aqui, eu despertei dentro do ônibus, dei sinal de parada, mas ele e os três ali não me deixaram descer na Central. Estava indo pegar o trem pro Engenhão.
- O Sr. parece confuso, aguarde lhe chamarem pelo nome.

A essa altura, Agnaldo compreendia mesmo muito pouco do que acontecia à sua volta. Sequer acreditavam que ele se chamava Agnaldo - a carteira fora perdida, ele não sabe onde. Ele sentia-se meio zonzo, mas bem. Queria ir embora, mas, depois de ter preenchida a ficha de pré-atendimento, nem a recepcionista, nem o motorista, os três e nem mesmo o guarda o deixavam sair dali sem ser atendido. Pior pra ele: como o estado geral parecia bom, a prioridade de atendimento o faria esperar ali pelo menos uma hora. Logo hoje, quarta-feira. Perderia o jogo do seu Botafogo no Engenhão, estádio que visitaria pela primeira vez.
Lembrou-se de ligar para um amigo, o Jerry, mas cadê o celular? A moça, que o acompanhara junto do motorista e dos dois passageiros acudiu.
- Obrigado, disse à moça, ao mesmo tempo que digitava o número do celular do amigo.
- Alô, Jerry falando.
- Jerry, é Agnaldo, vê se pode me ajudar. Estou aqui no Sousa Aguiar e...
- Que trote mais improvável! Esse não é o número do Agnaldo, e ele me disse que estaria a caminho do Engenhão a essa hora...
- Calma, Jerry. Sou eu mesmo. Nem sei se fui atropelado pelo 174, mas o motorista e mais três pessoas - acho que eram passageiros, e que eu não sei bem porque ainda estão aqui - me troxeram até o hospital. O meu Oi e a carteira se perderam eu sei lá onde, depois de...
- Tá bom, Agnaldo, agora reconheço que é mesmo a tua voz. Só mesmo você e quem trabalha lá é que chamam celular de Oi.
O fato é que Jerry reconheceu Agnaldo, mas em sua cabeça a ideia do trote crescia. Afinal, desde aquela tragédia que virou filme, a linha 174 não existia mais. Improvável Agnaldo perder a carteira, a qual trazia sempre consigo - com documentos, cartões de crédito e de visita; tudo em excesso; um talão de cheques e notas quase todas de 2 Reais. A cada três minutos, Agnaldo tinha o costume de checar se a carteira estava mesmo no bolso. E na remota hipótese de ter mesmo caído abriria um buraco no piso.
- Jerry, você me ouve?
- Claro, diga lá...o Fogão vence hoje?
- Cara, que Fogão... ainda passei no Bar Monteiro, tomei dois chopps com o Wanderley - você lembra dele, não é? - mas ele desistiu de ir ao Engenhão. Disse que pega cedo no batente amanhã, mas acho que ia pegar alguma coisa ainda esta noite.
- Agnaldo! Não existe mais Bar Monteiro, são quase sete e meia da noite, eu ainda aqui...
- Espera, Jerry, vou ter de devolver o Oi da moça...Você me pega aqui, estou meio desorientado.
- Eu te encontro é pra gente tomar um chopp. Se você está mesmo no Sousa Aguiar, pega o 438, ou um táxi, e vem até o Jardim Botânico. Você escolhe o lugar, mas tem que ser por aqui. Eu estou morto de cansado e quero estar perto de casa. Um só, pra gente matar a saudade do próximo mês; vou de férias com a Silvinha amanhã, lembra? Eu mereço.
- A ideia é boa. Se o guarda, o motorista, os três, a recepcionista, o pessoal da triagem, o enfermeiro que me olha torto e o doutor que nem me viu ainda me liberarem, eu vou até aí. Isso vai demorar pelo menos umas duas horas, mas hoje, último dia antes das férias, você não sai daí antes das nove...Podemos marcar no O'Phillipe.
- Cara, deixa de sacanagem que não tem mais O'Phillipe. Agora lá é o Belmonte do Jardim Botânico. Fomos lá há uns trinta dias, no final daquele congresso de poucas novidades, tá lembrado? Te espero lá às nove e meia.
- Se eu escapar...

Agnaldo devolve o celular à moça. Agradece e se afasta, não antes sem perceber que Roberto, o motorista, e a moça continuam a conversar em voz baixa e sem parar - o que já observara antes. Folheiam juntos um livro de capa escura.
O motorista parece ter 35 anos. Branco, de bigode, cabelos lisos e curtos, barba feita, uniforme da empresa, gravata levemente afrouxada. Calmo, seguro, ônibus estacionado na porta do hospital, sem se preocupar nem com a hora nem com o 174, duas rodas sobre a calçada do Campo de Santana. Pergunta se Agnaldo precisa de alguma coisa. Este agradece.
A moça do celular é mais jovem. Só quando ela levanta a cabeça pra receber o Oi das mãos de Agnaldo, ele repara como é linda. Não se lembra de tê-la visto no ônibus, quando acordou saltando ele e o banco traseiro, com dois passageiros pedindo-lhe calma.
- Vou descer aqui. Abre aí, Piloto, por favor.
- Calma, rapaz. Vou te levar pro hospital.
Os olhos da moça são cheios e castanhos, o cabelo é em cachos. A blusa é comportada, mas revela o recheio no imaginário de Agnaldo. Combina com a saia, quase colegial, que deixa ver e esconde pernas altas de uma morenice capaz de aturdir qualquer Wanderley. Agnaldo pergunta aos dois porque ainda estão ali - 'Não é preciso', pensa. Antes que ela possa responder, ouve-se chamar um nome, procurado por olhos descrentes dos que estavam na sala de espera:
- Sr. Agnaldo Timóteo!
- Sou eu!
Agnaldo é atendido numa pequena sala. O médico tem pressa. Pede que Agnaldo lhe conte:
- O que houve?
- Ouço perfeitamente, Doutor.
Impaciente, o médico repete a pergunta:
- O que aconteceu, Seu Agnaldo, que o fez vir até aqui?
Agnaldo conta só o que sabe ou o que lembra. Refaz para o doutor o roteiro que o fez sair do mesmo prédio em que trabalha o Jerry, na rua da Assembléia, contornar a Primeiro de Março, comprar um livro na Livraria da Travessa da rua 7 de setembro, virar à direita na rua da Quitanda, tomar dois chopps (ou foram quatro?) com o Wanderley no Bar Monteiro, chegar à Candelária, atravessar a igreja, o 174 quase entrando pelo seu olho direito...
- O Sr. foi atropelado? Ficou desacordado? Tem algum ferimento, hematoma? A cabeça dói? O corpo dói? Onde? O Sr. está alcoolizado? Tem antecedentes de doenças graves na família? É hipertenso? Tem diabetes? Toma alguma medicação?
- Já respondi quase tudo isso na ficha que preenchi ao chegar. O Doutor não leu?
- Sim, está aqui, mas...
- O Doutor tem que confirmar, né? Que nem call center...
O médico fez um exame clínico correto. Mediu pressão, auscultou coração, fez Agnaldo quase se contorcer pra checar a coluna, apalpou-lhe o abdomen, fez Agnaldo andar de olhos fechados. Viu-lhe a cor da língua e da pele. E as cores nos olhos. A sensibilidade de mãos, pés, extremidades. Sentiu-lhe a respiração. O pulmão. Tudo parecia bem. Estava bem, ao exame clínico. Chamou o enfermeiro, que trouxe um copo d'água e dipirona. 'Melhor não'. Fez com que bebesse apenas a água. Recomendou um Gatorade. Suspeitava de uma leve desidratação, nada sério que o isotônico não resolvesse. Aconselhou-o a ter atenção às próximas 24 horas, que voltasse caso não se sentisse bem. Recomendou-lhe que depois fosse a  uma UPA ou ao seu médico particular, fazer um checkup. Agnaldo agradeceu e tranquilizou o doutor:
- Vou estar com o meu médico mais rápido que o doutor pode imaginar. Prometo.

Liberado, menos confuso e mais feliz, Agnaldo retornou pelo caminho que fizera percebendo que seus quatro acompanhantes não estavam mais lá. Soube pelo guarda que dois tinham assinado a ocorrência pra que não houvesse problemas para o motorista, e que se tinham ido embora pouco antes dele devolver o Oi à moça.
Os outros dois o aguardavam lá fora,  já dentro do ônibus. O motorista convidou:
- Pode subir, vamos levar você em casa, ou seja lá pra onde você for. Você está bem?
- Brincadeira tem hora. O que vocês dois estão fazendo aqui até agora?
- Reconstruindo a vida.
- Como assim?
- Ônibus velho, reclamei com o fiscal, liguei pra empresa, isso antes de sair do ponto, em São Conrado. Ninguém deu bola. Tão velho que o letreiro ainda guarda no carretel uma linha que não existe mais, a 174. Fui mexer nele e ficou lá: 174 - Central. Nem percebi. Só estranhei que, em plena hora do rush, pouca gente pegasse o ônibus. Ainda levei um pito de outro fiscal na Praia de Botafogo que estranhou o ônibus quase vazio sem perceber o letreiro. 'Ta correndo, é?'. Eu estava, sim, mas não era do que ele estava pensando.
- Tá bom, mas o que isso tem a ver com reconstruir a vida?
- Quando saí da Primeiro de Março, colado junto do Centro Cultural Banco do Brasil, dobrei com todo o cuidado - quase 90 graus à esquerda -, próximo da Candelária. Meio da pista, sinal aberto e você ignorou, aparecendo inteiro na minha frente. Em poucos segundos, depois de pisar com tudo no freio do velho ônibus, lembrei do quanto xinguei o fiscal, a empresa e seu donos, o mecânico, os passageiros, o outro fiscal, o mundo. Tudo isso, só porque me faltava coragem.
- Reconstruir a vida, falta de coragem...? Espera aí, acho que preciso voltar pro hospital.
- Fica calmo que te explico...O velho ônibus salvou você e você salvou a minha vida. Os bancos estão riscados; alguns, estão soltos e - disse, apontando para a moça do celular - ela, a cobradora, é alta e quase não cabe nesse banco duro e velho. A suspensão morde os buracos do asfalto, os sinais de parada só funcionam do lado esquerdo.
- Essa moça é cobradora?
- Quando vi que você apenas tinha caído sem ser tocado pelo ônibus, agradeci ao mecânico, à empresa e seus donos, aos fiscais, a Deus e ao mundo, porque algum deles havia cuidado do freio. Jurei, naquele momento, que levaria você e os dois passageiros até a porta de casa esta noite, a morena... E o ônibus, pra dormir na porta da minha casa. Ninguém mais vai falar mal do 174.
- Tá bom, eu vou pro Jardim Botânico encontrar um amigo que sai de férias amanhã
- Pode subir que eu te levo lá. Depois levo a moça. E meu nome é Roberto ('eu já sabia, o nome dele aparece na ficha do hospital, como responsável pela minha pele').
Às 21h30, pontualmente, Agnaldo e Jerry se encontraram no Belmonte.
Ao ver o ônibus encostar, e descerem dele o motorista e a cobradora morena fazendo a entrega do Agnaldo, Jerry começou a acreditar na história, cujos detalhes sorveu junto da meia dúzia de chopps que tomaria no Belmonte.
- Oi, Jerry, o doutor disse que eu estou bem, e mandou eu procurar você.
- Tá bom, vai daqui a 20 dias lá no consultório que a gente faz um checkup. Aqui mesmo no bar, prescrevo os exames de rotina. E vê se não faz bobagem enquanto eu estou de férias.
Agnaldo havia confundido os filés - o do Filé de Ouro, que fica na mesma rua, um pouco mais à frente, e o do Belmonte, que, no mesmo lugar onde esteve o restaurante O'Phillipe, respeita a tradição de servir bem da velha casa.
Agnaldo observava a morena e o motorista se afastarem, agradecido. Correu até eles, antes que o motorista desse a partida no velho 174:
- Ia me esquecendo, disse Roberto. Tem um livro de capa escura que aquel guarda magrela jogou dentro do ônibus. Disse que estava junto de você no asfalto da avenida, mas... sei não, você não iria pro Engenhão levando um livro de 600 páginas, né? Pega teu celular e tua carteira lá no fundo do ônibus. Devem ter caído do bolso quando te deitamos lá e a Rita percebeu quando voltamos pro ônibus.
- Vou pegar...pronto! Obrigado. Agora, sim, minha vida está salva. Mas corri até aqui pra te perguntar: a que coragem você se referia? Confesso que ainda não entendi muito bem...
- Pois é, lembra quando você devolveu o celular pra Rita? Que ela e eu estávamos conversando pelos cotovelos? Tinha que ser ali. Falei pra ela ligar pro cara, pra dizer que não ia se encontrar com ele, que o ônibus e eu tinham dado problema. Depois daquela freada que salvou a sua e a minha vida, eu não tinha mais medo de nada. 
- Que cara? Que medo?
- O de confessar meu amor por essa morena e ela achar que eu fosse só mais um Wanderley na vida dela. O medo eu já tinha perdido. E a coragem eu achei nesse livro.

Depois de beber meia dúzia de chopps, Dr. Jerry prometeu a Agnaldo nunca mais duvidar dos telefonemas dele. Ficaria na dúvida se o Monteiro havia mesmo fechado as portas se Agnaldo não tivesse se lembrado, ainda naquela noite, que parou mesmo foi num bar próximo, praguejando contra o fechamento do Monteiro e uma loja do rival Flamengo quase do lado. 'Sem Bar Monteiro e com Flamengo, vou-me embora dessa Quitanda'.
O amigo Jerry pagou a conta do Belmonte. Caminharam ambos até o prédio na rua Pacheco Leão, onde Jerry mora com Silvinha e dois filhos. Embriagado por três tulipas de Gatorade, Agnaldo despediu-se de Jerry e desejou-lhe 'Boa viagem'. Atravessou a rua novamente e ia tomar um taxi, quando percebeu o 438 chegando. Tomou o ônibus em direção a Vila Isabel, onde mora sozinho mas não por muito tempo; criara coragem naquela noite. Ao passar em frente ao Parque Lage, notou o 174 parado, com faróis e lanternas acesos. A linha recomeça amanhã, um pouco mais tarde e já a alguns quilômetros do ponto de partida. A promessa de levar o ônibus e a morena pra casa ficou pro dia seguinte. Roberto relê a página 425, arrancada do livro de Agnaldo (1) :
...
Contudo, contudo,
Conseguiste
Prender-me um pouco o coração.
É um coração triste
E não
Se entende com tudo
Nem tem jeito
Para se fazer amar
Ou para o imaginar,
Salvo quando
Teu olhar
Teimosamente brando
Me fazia saltar
O coração dentro do peito
...

Roberto já mora com Rita a partir desta noite.

(1) Poesia 1931-1935 e não datada / Fernando Pessoa - ed.: Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine; São Paulo, Companhia das Letras - 2009.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tríplice Fronteira

Devia ter feito mais coisas, aproveitado melhor o fim de semana - é o que diz a velha ansiedade que planeja dezenas de coisas quando não apenas o tempo, mas o coração, avisam que pra ficarem guardadas neles só se podem fazer três ou quatro. Sei agora que boa parte da terra carioca cabe toda em Laranjeiras e arredores. Que há tempo pra visitar a amiga na clínica - ainda enferma, com um sorriso suave e lírico, feito daquele par de olhos improvável de esquecer e nada débil. Conversamos por uma hora. Viajo no sentido contrário e encontro com ela no passado - Praia de Ipanema; ela chegando, junta-se aos amigos e eu quase saindo porque somos das manhãs. Tenho tempo ainda de ouví-la, e aos amigos, sobre o último evento de arquitetura e decoração. E de falar pelos cotovelos porque, tomando a voz de um amigo, "na minha área, somos especialistas em generalidades e generalistas em especialidades". Ao sair, estou certo de que depois do aplauso para o pôr do sol a loura vai-se embora com ele e deixa saudade em Ipanema. Porque precisa voltar pra casa, na Glória. Sorte da Glória, de Laranjeiras e arredores.
Volto ao presente, ou ao futuro que já é passado. Saio da clínica, com a certeza de que ela vai me seguir, caminhando à esquerda da rua, pra visitar o Casa Cor no Palacete Modesto Leal e levar sua crítica para a praia. Mas não a vejo, ainda. Próximo dali, tomo o 497, passo pelo Catete, Glória - as transversais que levam a Santa Teresa à esquerda, o Aterro do Flamengo do lado direito. O ônibus vira à esquerda, na tríplice fronteira entre Glória, Centro e Lapa. Passa pelos Arcos. O cansaço das viagens pelo tempo me deixou tonto. O 497 pára ao meu sinal e eu não desço. Ainda viajo, parado à espera que se abra a porta. Descubro que estava junto ao acesso para cadeirantes. O motorista percebe e não me deixa passar do ponto. Então, desço próximo da rua Gomes Freire. Ainda que a alma e o coração estivessem saciados por um dia tão rico, o corpo acusa o golpe da reentrada na atmosfera da Terra e o estômago clama por sua causa. Corro, mas sei que tenho tempo. É um pouco tarde pro almoço porque sou das manhãs. É sexta-feira, cedo demais pro final do dia - que é como eu chamo o tal do happy hour. Desde que saí de Laranjeiras, meu destino já está traçado. Levado a um lugar incomum e imperdível - o Lapa Café, que também é bar, casa noturna, galeria de arte, espaço pra eventos, cervejaria.
E lá se vai o meu final do dia pro meio da tarde.
Ainda estou em Laranjeiras... e arredores. O mundo cabe todo aqui. A nave continua sua viagem. E ainda era sexta-feira.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Simon Bolivar no Largo do Machado

Tantos puxadinhos levando lojas, bares e restaurantes para as calçadas e o tal choque de ordem da nossa Prefeitura foi logo implicar com o Café do Largo. Deu matéria no jornal O Globo, repique e o escambau, até que o Café fosse proibido de pôr as mesinhas na calçada. Tá certo!? Enquanto isso, tente dar uma volta pelo perímetro do Largo do Machado sem ser atacado por pelo menos uma dúzia de panfletários de ocasião. Sim, distribuem-se folhetinhos do crédito fácil, do comércio nem sempre local, de políticos (os santinhos, como são chamados - os folhetos, não os candidatos), de sessões espíritas, de compradores de ouro... Cá entre nós e com todo o respeito, um porre. O Largo tem sido ocupado periodicamente por feira de livros, e ainda por uma feirinha cujo foco ainda não identifiquei - junta artesanato (?), comidinhas, roupas, acessórios... a Feira de Ipanema que se cuide. Esconde, quando acontece, as barracas de flores e suas cores que deixam o Largo mais bonito, com a Igreja de N.S. da Glória ao fundo. Há também os camelôs, os meninos de rua, os homens ou mulheres-sanduíche, os performers que se fazem de estátua viva e até um roqueiro solitário e seu violão (ou será guitarra?) e cuja música ainda não consegui decifrar - mas ele tem algo de Mick Jagger, de Serguei... mas acho que nem ele sabe. Também há na praça os ciganos; encontram-se lá, sempre bem vestidos e movimentam-se quase sempre em grupo. Os jovens que saem do Colégio Amaro Cavalcanti; alguns deles, casais óbvios, se enredam com abraços e beijos juvenis no Largo. Há os pontos de ônibus que desafiam a lógica do espaço que deveria ser dado ao corredor que liga o Catete ao Túnel Rebouças. Há as árvores frondosas cuja copa serve de abrigo (e os troncos, ao xixi eventual) a motoristas e cobradores e de estacionamento de triciclos e bicicletas. Saiu dali, não sei até quando, o som (ao vivo, inclusive) da flauta doce que quase todos os dias e por anos anunciava a venda de CDs de músicas de origem ou ao estilo bolivianos. A quem interessar, há novos pontos de venda: Av. Presidente Vargas, esquina com Rua da Conceição, sentido Zona Norte; ou no Castelo - Av. Nilo Peçanha, esquina com Av. Rio Branco. Que me perdoe Evo Morales, mas passo a pelo menos duzentos metros dessas flautas doces. Voltemos ao Largo: tem cabine da PM, ou trailer - que quando está por ali deixa comportados os meninos de rua e ariscos os camelôs. Também tem gente pedindo - quase nunca é verdade, "um dinheirinho pra completar a condução, que peguei o ônibus errado, vim visitar uma prima doente...serve qualquer moeda". Só com essas coisas já seria possível montar um programa pra mais de meio dia num único ponto da terra carioca - a praça é do povo! E terça-feira ainda tem a feira na praça entre as ruas Machado de Assis e Dois de Dezembro, atrás da galeria do cinema São Luiz. É programa, sim. Driblando tudo o que incomoda, e às vezes atrai, o Largo e seu entorno têm cinema e um capuccino criminoso de bom na galeria São Luiz, o quibe e a esfiha do árabe da galeria Condor; a boa comida, o chope pra lá de bem tirado e o preço justo do Restaurante 184 da Rua Bento Lisboa (entrada pelo Largo do Machado); o sorvete Itália já na Rua do Catete, próximo à Dois de dezembro. Tem o Oi Futuro, nesta mesma rua, com programação cultural de primeira e quase tudo grátis. Na mesma calçada, vire à direita, na Rua do Pinheiro, e almoce no Nanquim, um quilo saboroso e saudável. Tem livraria perto do Largo, pequenas galerias que escondem (ou revelam) costureiras, sapatarias, relojoeiros (procure pelo Valmiro, na pequena galeria entre as ruas Machado de Assis e Almirante Tamandaré). Tem ainda o Tacacá do Norte, na Barão do Flamengo - prove a casquinha de caranguejo com Cerpa gelada. Quer uma das melhores cartas de cerveja da cidade? Avance um pouco mais e chegue no Herr Braüer. E já que está nessa rua, encontre o Salão Simon Bolivar. Procure por lá o Antonio (cirurgião capilar, no bom sentido), o Seu Armindo... Peça, que eles capricham e você ainda chega em casa e diz pra mulher ou pra filha que foi no Werner ou em qualquer outro dos W que fazem as cabeças mais chiques da cidade. Elas vão desconfiar, mas mantenha-se firme. Confesso que ainda não tive a coragem de perguntar porque um salão de barbeiro que tem português, carioca, nordestino... se chama Simon Bolivar. Lula e Hugo Chávez certamente desconhecem a homenagem. Fica a sugestão que venham, ambos, prestigiar o bloco Cachorro Cansado, que sai duas vezes no carnaval - a concentração é na mesma rua, esquina com a Senador Vergueiro, e o patrocínio do governo dito bolivariano do dito Hugo seria benvindo. Começariam pelo almoço no restaurante japonês, o Kioto, na rua Min. Tavares de Lira; afinal, os dois mexem bem os pauzinhos. Mas, na escada de acesso, com certeza parariam um andar antes, nos bilhares (Bola de Cristal Bilhar e Bar) - pra jogar uma sinuquinha, pra tomar uma(s)...que ninguém é de ferro. Na saída, já que o mundo vai estar rodando, iriam na direção para contornar o Largo, para depois então chegar ao Cachorro Cansado. Ou ao Cachorro, cansados de ver o mundo rodar, mas sem conseguir pegá-lo pra si, como querem um e outro. Para reduzir este risco, no caminho haveria tempo pro cafezinho, e pra que conhecessem a simpatia, a qualidade de atendimento e os sabores do Café do Largo, na esquina com a Rua Min. Tavares de Lira. Como é da índole chavista, o Presidente venezuelano ordenaria ou, orientado pelo democrata Lula, intercederiam ambos junto ao nosso Prefeito para que este concedesse permitir umas cadeirinhas sob o toldo do Café do Largo. Ou umas espreguiçadeiras, quem sabe.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Meia dúzia ou 87?

Há um amigo meu, economista, político, professor, escritor e blogueiro dos bons que inseriu "Notas CaRIOcas" sobre Búzios, Niterói, Paraty e Volta Redonda em seu blog. Talvez seja pra
(e)levar o espírito carioca pra todas as bandas. Ou pra colher o mais original e puro de sua formação, beber (no caso deste post, literalmente) em outras fontes...
Falo de Volta Redonda...
Há muito tempo (bota tempo nisso!) eu não via do meu lado meia dúzia de garrafas (bota meia dúzia nisso!) enfileiradas numa mesa de bar dividida com amigos. Não chegaram todas juntas, é claro. Foram chegando uma a uma, cada uma delas no limite entre o estado líquido e sólido. Desceram redondas? Melhor que isso; foram ondas nas quais surfamos ora pelo nosso pedido, ora pela oferta atenta do dono do bar ou do seu pai - o primeiro, surfando conosco em alguns goles. Todas servidas no tradicional copo americano.
Um bar de família, o Bar do Julião - Rua Argentina, 701 - Vila Americana.
Pai ou filho ameaçavam com cada garrafa, coberta por uma leve camada de gelo, o calor lá de fora se ele se atrevesse a entrar no recinto. O Bar do Julião sabe receber. Desde simples mortais como nós a políticos locais, executivos e ex-executivos, vizinhos e comunidade, sociedade e povo trabalhador. Já vi o Julião dando uma colher de azeite pra um vizinho trabalhador, aconselhando-o a deixar o recinto porque bebera (não, não foi azeite) demais.
Pra acompanhar a cerveja, neste sábado havia costelinha de porco. No ponto, com farofa e couve à mineira. Combinação perfeita com a tal cerveja em que surfamos - Brahma Chopp da boa, original, mais que redonda. Ainda olhei pro lado, pra feijoada, também servida aos sábados, e que era devorada na mesa ao lado com indisfarçável prazer. Ouve ainda a oferta de um franguinho aperitivo, descartado a favor de bolinhos de carne (meia dúzia?) que é o upgrade de um similar batizado, provavelmente por algum médico, de monstrinho, do qual também já provamos sem chamar Van Helsing e que é encontrado no Ressaquinha - em Barreira Cravo, programão aos domingos por volta das 11h da manhã - ao lado de itens da culinária do bom (ou boom) colesterol. Mas voltemos ao Bar do Julião. E aos frangos.
Julião faz sucesso com o frango, finalizado na "frigidaire de cachorro", mas antes preparado com apuro exemplar. Lá, frango é frango mesmo e o Julião arrumava espaço na cozinha pra começar o preparo de 87; sim, 87 frangos, que seriam vendidos no domingo - um sucesso na Vila Americana (17 já com pré-reserva confirmada). O Julião tem ainda um santuário atrás do balcão, à direita de quem entra no bar, onde ficam as "bebidas quentes", mas cuja atração são as cachaças de qualidade - Providência, Salinas, Boazinha...
O banheiro...bem, é banheiro de boteco; se puder, escolha ir fora dos horários de pico.
A cozinha é aberta, ao fundo e de frente para o salão do bar. Limpa e cuidada.
Quando a fileira de cervejas se encaminhava para o precipício, chega ao bar uma figura de Volta Redonda - bom de bola e de noite, e que hoje atua na gastronomia local servindo boa comida árabe...mas aí já é outra história. A que cabe aqui é que o cidadão, benvindo à mesa, achou nela espaço pra enfileirar mais meia dúzia de histórias e de cervejas (bota meia dúzia nisso!). A esta altura, eu já era refugiado de Obama, agarrado a duas Coca-Colas Full. Cervejas e histórias que nos fariam ficar ainda mais tempo por lá. A primeira bateria de histórias passou por esporte, meio ambiente, cidades, turismo, gastronomia, mulheres (as nossas, são nossas as mulheres, as mulheres são as nossas). A segunda bateria também teve disso tudo um pouco, mas chegou-se até a lançar candidato a deputado. Um bar pode tudo! Não posso ficar mais meia dúzia de meses (bota meia dúzia nisso!) pra voltar lá. E nem deixar que meus amigos de fora do Rio ou do Brasil voltem à base sem conhecer o lugar. O bar e o Julião merecem. O que ele não merecia é que o seu Botafogo, que deu muito mais que meia dúzia de craques ao nosso Futebol, no dia seguinte, tomasse meia dúzia de gols, incluído o frango do goleirão Jefferson, que não tem nada a ver com os 87 do Julião.