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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Hospital dos Servidores - Copacabana

A Copa de 70 estava no meio e o Brasil venceu o Peru, cuja seleção era treinada pelo nosso Didi, por 4x2. Eu tinha 12 anos. Estava no Leblon, na casa de amigos. O jogo acabou e o dono da casa, Português do Distrito de Viseu, na época com menos de 40 anos e já um bem-sucedido empresário, levantou-se, foi até o seu carro, e encheu-o conosco (não me lembro quantas pessoas havia no carro, mas acho que passava dos 5 regulamentares). Foi passear, feito o mais fánático torcedor brasileiro, pelos bairros vizinhos - buzinando, vibrando e participando da comemoração dos cariocas pela vitória de Pelé & Cia. Claro que algumas pessoas subiram no capô do carro, e isso só fez a festa aumentar... até que uma leve freiadinha de arrumação, à hora de voltar pra casa, desarrumou um torcedor com teor alcoólico além do permitido pra subir em capôs. Esse mesmo Português, poucos anos depois, quando este carioca passou no vestibular, praticamente fez um discurso na contra-mão dos muitos argumentos ou dos poucos Cruzeiros que minha família tinha pra que eu pudesse fazer o curso. Disse que garantiria a faculdade ao rapaz desde, é claro, que o tal rapaz fizesse a sua parte de estudar direito e de pagar a perder de vista. Não foi preciso, mas de outra vez o foi - quando Papai precisou de uma grana pra complementar a compra de um pequeno negócio. O Homem apareceu lá em casa com pacotes de dinheiro carregados em envelopes pardos. Uma vez, quase me expulsa da casa dele, porque a cada mês eu ia pagar-lhe, pessoalmente, o tal empréstimo em cotas mensais - ele queria que eu fosse lá visitá-lo e não como se estivesse indo a um guichê de banco pagar o boleto. É dele que ganhei de presente um barbeador Philishave, à época da formatura, que funciona perfeitamente há 30 anos. É dele que lembro algumas tardes de domingo, porque aparecia lá em casa, depois de almoçar com a família, pra tomar o café que só minha mãe fazia. Especial era o momento, nem tanto o café. Empresário, empreendedor e líder, com competência e intuição para fazer bons negócios, adorava aquela hora com meus pais, em uma pequena casa de vila no bairro da Saúde, em que revelava os melhores traços e o bom humor do amigo da aldeia do norte de Portugal. Às vezes, fazia-nos ir até a sua empresa de ônibus, aos domingos ou feriados porque a ela dedicava boa parte do seu coração. Ou a acompanhá-lo, fiscalizando ele mesmo se os motoristas dos seus ônibus estavam se portando bem. Uma vez, me lembro que mandou um motorista ligar o carro, desconfiando se estava mesmo enguiçado, na Av. Rio Branco. O ônibus pegou, e o motorista seguiu o itinerário tendo a convicção de que esta era sua única chance para manter o emprego no dia seguinte. Na Garagem - assim ele chamava a sede da empresa - ouvi uma vez explicações sobre um ônibus que estava no pátio à espera de uma relaxada perícia, depois de um sério acidente. Dizia-me ele que o ônibus estava em perfeitas condições e que provavelmente um mal súbito do experiente motorista é que tinha sido a causa do tal acidente. Mas, se não estivesse, ele já teria tido tempo de sobra pra fazer do rodado ônibus um zero Km sem que nenhuma autoridade o houvesse tocado. Pois é, mais fatos e histórias há sobre esse bom patrício que sofreu na pele a violência urbana, com dois sequestros na família, e que viveu uma vida bem vivida, com os ganhos e as perdas que a vida nos dá a todos. Trabalhou, empreendeu, construiu, gerou inúmeros empregos; conviveu, brigou e voltou a conviver com governos e com desgovernos. Cresceu, implantou, fez. Voltava à sua aldeia, em Portugal, sempre que podia. Mas o coração dele é luso-brasileiro, que nem aquele dos 4x2 sobra a Seleção do Peru. E ele sempre voltava pra fazer crescer a sua obra, feita também de amigos. Costumava dizer à mulher de alguns destes amigos que elas estavam lindas, mas que fôra o casamento que as deixara assim - lindas e felizes, que nem a mulher dele. Essa era a forma de confirmar o seu amor pela mulher com quem viveu toda a vida. Não o via há muito tempo, embora pelo irmão e pelos vizinhos soubesse dele. Não vou vê-lo mais, porque subiu aos céus na penúltima sexta-feira, onde deve estar dando ordens e revolucionando o território de Pedro e de quantos mais forem os santos que se puserem no caminho dele. A esta altura, deve estar tomando o café que tanto curtia em algumas tardes de domingo. Olhando com visão privilegiada seus amados ônibus circulando nesta terra carioca. E passeando sem medo por garagens, ruas e avenidas com os amigos. Um deles, meu pai, batizou certa vez uma linha de ônibus que usava regularmente, no Rio, de Fera. Sim, Fera! Talvez porque tentasse expressar - mais que o orgulho pelos ônibus novos que o amigo pusera na linha - a força desse Português do Douro, capaz de nos encantar desde sempre. E de quem tenho uma saudade maior que a grande admiração que, por timidez, poucas vezes demonstrei ter por ele. Um amigo que se vai é mais uma perda que a vida me impõe, mas os ganhos do seu convívio vencem por muito mais que os 4x2 daquela tarde-noite no Leblon de 1970.