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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Em algum lugar da Praça XV

Desço do ônibus na Praça XV. Procuro pela Casa América, restaurante dos bons, clima carioca, ótima cozinha, informal e frequentado por cariocas de corpo e de alma, vips ou cidadãos comuns. Na única vez que lá fui, cumprimentei o ex-presidente Fernando Henrique que estava próximo do bar, na primeira curva após o corredor onde fica a recepção. A Casa não tem câmeras nem qualquer man in black a fazer-lhe a segurança. Naquela vez, comemos um Bacalhau à Portuguesa absolutamente inesquecível. Custo a encontrar a Casa América, reluto em perguntar aos passantes; logo eu, conhecedor de cada canto daquela região. Ora, o restaurante era mesmo ali - um pedaço da Praça XV, colado à antiga tabacaria, que eu teimava em considerar como rua Sete de Setembro; afinal, este era o endereço. Pensei se estaria escondido atrás de algum tapume, para obras, ou se não teria letreiro, posto atrás de alguma fachada preservada pelo IPHAN e se abriria apenas para o jantar. Não, não pode ser - o movimento intenso da cidade àquela hora era razão suficiente para abrir para almoço. Por mim, se minha lembrança não falha, ficaria sempre aberto.
Resolvo recorrer à memória da última e única vez em que lá estive, na verdade há poucos dias. Meu avô, morto aos 74 anos, em 1979, resolveu visitar-me, numa noite improvável no Centro do Rio. Próximos da Candelária, onde uma imensa fila buscava futuro apostando na megassena acumulada. Dobramos na rua da Quitanda, subimos a rua da Alfândega e chegamos à rua Primeiro de Março. Linda, os sobrados iluminados, bares planos cheios de gente feliz, a maioria em pé, junto ao balcão tomando chopps que estenderiam o rush e a justificativa para o happy hour para além das nove da noite em plena terça-feira. Meu pai, morto em 2005, aos 74 anos, ligou. Tinha um sorriso imenso na voz e insistia que fôssemos os três até a rua Sete de Setembro, ao Restaurante Casa América. Ele vinha de Copacabana e não se importava com o cansaço depois de trabalhar duro até quase as nove da noite. E para lá fomos eu e meu avô encontrar a Casa cheia de conhecidos e desconhecidos que se tornavam amigos em segundos e que abriam espaço em suas mesas e em seus corações para nos receberem. Vieram os bolinhos de bacalhau, pequenos pastéis, as azeitonas, as torradas de pão francês - o lugar parecia o restaurante Mosteiro; este, na rua São Bento e muito mais formal e caro. Só que aberto para a rua, bar ao fundo, esplanada aberta para a Praça XV iluminada, viva e cheia de gente àquela hora. O Bacalhau à Portuguesa, alto, sal na medida, couve farta, azeite grosso a acompanhá-lo, foi servido junto de um bom vinho verde branco e geladíssimo, Casal Garcia. Meu pai chegara minutos antes e parecia íntimo de todos na Casa América. Lembro do forte abraço que nos demos na tal curva do bar. Sem muita cerimônia, e com a devida alforria concedida por minha mãe, todos comemos e bebemos muito bem e com prazer inesquecível. O café do meu avô clinicamente reforçado por gotas generosas de uma boa bagaceira lusa. Entre uma e outra garfadas, ao abaixar levemente a cabeça, percebi que meu pai não estava mais ali. Aquela parte do salão tinha se esvaziado e o restaurante fazia naquele momento os últimos pedidos para a cozinha. Onze horas da noite. Pedi um pastel de Belém. Após o seu café com gotas de bagaceira, também meu avô tinha deixado a Casa sem que eu percebesse. Pedi a conta, mas ela já estava paga, me disse o garçon. Eu parecia sozinho novamente, mas a praça tinha muita luz e muita gente; eu tinha o Centro do Rio como um amigo fiel. As ruas limpas, claras e frescas com a própria luz a indicar o caminho que eu deveria seguir.
Estou à procura da Casa América no Centro do Rio e sei que ela está em algum lugar entre a Candelária e a Praça XV. Sei que está lá, mas o que cabe é voltar à noite, refazer o caminho.
É o que faço, mas começo mais longe do Centro. Vou até os Arcos da Lapa. Tenho o endereço do restaurante, de outro restaurante: rua Visconde de Maranguape, 24. Bar, restaurante e lanchonete que se foi há muitos anos na chamada revitalização da Lapa. O local deve estar hoje perdido em algum canteiro central. Os Arcos bem à frente dos olhos, meu avô como cozinheiro (não, naquele tempo não ousariam chamá-lo de chef). Dona Clorinda à frente do balcão da lanchonete, aqueles imensos baleiros onde suas mãos iam buscar doces e balas pro neto do Seu Manuel. Notava entre os dois um carinho imenso, uma paixão nunca assumida, porque novo amor após a viuvez precoce do Seu Manuel só mesmo pelo neto brasileiro, embora houvesse outros três em Portugal que queria amar também, mas que conheceu apenas por fotos. Trabalhou em outro restaurante, o Arouca, na esquina das ruas Barão de São Félix e Bento Ribeiro, onde é hoje o Terminal Rodoviário Américo Fontenelle, entre a Central do Brasil e o Túnel João Ricardo. Lugar onde havia, além do restaurante com mesas de madeira e toalhas cor de neve, uma barbearia onde eu cortava o cabelo com o Seu Carlos, uma ótima banca de jornal, engraxate. O fogão a lenha, nele havia uma chapa sobre a qual filés e outras carnes ficavam prontos em segundos, saborosíssimos e inigualáveis. Não, Seu Manuel não era dono, mas mandava muito. Tinha o respeito da dona, D. Rosa, e a admiração um pelo outro era visível. Lembro-me de meu avô ter encerrado uma briga com o peso da sua voz, embora tivesse na mão direita uma faca - digamos - como regra três. Também era uma espécie de terapeuta entre amigos e colegas, aconselhando decisões a partir de diagnósticos a que chegava em poucos minutos de conversa. Não era Homem de rir à toa, embora deliciasse a ele próprio e a todos à sua volta quando com rara precisão punha apelidos nas pessoas. Quando ouvia um palavrão mais duro entre a rapaziada do futebol, salvava o ofendido que, por exemplo, chamado de filho da puta, ganhava a sua paternidade. Era respeitado, admirava e era admirado pelos vizinhos do bairro, especialmente da vila onde morávamos todos.
Lapa - Central, e agora? Lá vou eu, desta vez sem a companhia do avô, à procura da Casa América. Percebo no caminho o Antigamente, o Cais do Oriente, o Casual Retrô, a Brasserie Rosário, o Al-Fárábi, a Adega do Timão, o Rio-Minho, mas onde está a Casa América? Procuro entender que aquele lugar mágico onde se fazem amigos, onde se reencontram saudades, onde só vai quem leva alegria e é livre, onde se come e bebe bem sem culpa, onde a luz carioca é intensa sem competir com a noite, onde o espaço é público sendo de cada um, só se encontra tendo acesso a um portal real que o mundo virtual esconde muito bem escondido. Meu avô deve cozinhar por lá, e meu pai é filho do chef. Qualquer dia eles me convidam de novo. A trilha já encontrei em http://letras.mus.br/milton-nascimento/27700/





sábado, 2 de abril de 2011

E o vento me levou!


Um dia é muito rico para ser desperdiçado.  Uma certa dor de cabeça, outra dor incerta no joelho esquerdo. Nada de dipirona, nem anti-inflamatório.Nem clínica, médico, sala de espera, exames , que isso não carece . Doutor formado bacharel mas longe da medicina, onipotente capaz de diagnóstico próximo da precisão: o joelho, culpa de uns dribles - ou a tentativa de executá-los – e a marcação cerrada numa roda de bobinho frente a adversários muito mais jovens. A dor de cabeça, fruto da desaceleração seguida de repentina aceleração por amar o futebol das quartas-feiras e ver o  nosso Fluminense (porque do Rio de Janeiro)  fazer gato e sapato de crédulos torcedores. Um dos quais, vizinho, de corneta e tudo a comemorar a sobrevida do time na Taca Libertadores. Coisas do futebol – ambas.
Receita? Meta-se no carro, esqueça um pouco desse calor, confie no vento. Vá até onde puder, na infindável busca de sua origem. Como o seu caminho inclui o Aterro do Flamengo, você se ilude. Encontra uma escala do vento, pensa ter-lhe encontrado a origem - a entrada da Baía de Guanabara é só uma estação que não cobra por sua passagem. Revisite o skyline do Rio, à esquerda; note que o vento sopra outra vez pra dentro do carro. Escape do anda e pára do trânsito da Av. Beira Mar, das nuvens de fumaça e de som. Refresque-se, agora sim, com o ar condicionado, sem perder de vista o mesmo vento, agora vestindo como uma luva a carroceria do carro. Suba a Perimetral, alcance a Ponte, viaje sem embarcar em algum transatlântico do Porto do Rio, que lhe povoe os sonhos, ou simplesmente despreze-os hoje porque o destino que lhe aguarda - e você ainda nem sabe dele - é tão simples, inédito, real e próximo que chega a ser um luxo. O que você leva no bolso é pouco, mas dá pra chegar lá, não haverá cassino a bordo, mas você cairá em algumas tentações capazes de lhe reduzir o trajeto e, ao mesmo tempo, ampliar horizontes. Ficará mais rico sem jogar e não precisará blefar. Basta decidir-se por um mergulho no fim da tarde e um café no início da próxima manhã. Escolha o lugar: Itacoatiara, Camboinhas...os dois, ou mais. Lembre-se do amigo que te convidou a conhecer um lugar que está no meio do caminho desse destino. Tome o caminho do Ingá; depois do MAC, desça e vire à direita na rua Dr. Nilo Peçanha. Passe a primeira esquina, a padaria, encontre um pequeno bar à esquerda, com o Luiz Roberto no balcão, os escudos e as fotos do seu América FC, campeão estadual da 2ª Divisão em época de vacas magras, clube também de vividas histórias ricas de paixão incondicional quando dois irmãos gêmeos, de cabelos cheios e louros entravam com o time em campo com o mesmo orgulho e alegria com que hoje, atrás do balcão e à frente de seu negócio, um senhor fala do seu clube e de sua paixão ainda maior pelo bom Futebol. Coadjuvante com prestígio de Oscar da Academia, o pastel atrás do vidro, no Balcão, foi eleito o melhor de Niterói. Pela gravação feita sobre os azulejos de cores alvi-rubras, americanas, o título permanece na casa, parece vitalício e é incontestável que os pastéis batem mesmo um bolão. Craques no mesmo nível de Alex, Edu Coimbra, Ivo, Flecha, Bráulio, Luisinho...ídolos da década de 70 - uma delícia o Futebol que jogavam. Começo pelo tradicional, um pastel de carne, fecho com o pastel de feijoada - quentinho, uma delícia à qual valeria preceder de uma caipirinha. E me surpreendo lembrando cada nome do time de 74. Folheio a revista Placar, uma edição de 1970 e alguma coisa, guardada por mais de trinta anos, de tom sépia que lhe deu o tempo. Há nela uma matéria, com a foto dos gêmeos - Luiz é um deles - entrando em campo, mascotes do América. Senhoras, jovens, aposentados, amigos diários da cervejinha passam pelo bar, encostam-se no balcão, provam e aprovam os pastéis do Bar Manhães. Eu, de passagem para conhecer o bar e os pastéis, fico mais rico sem pôr a mão no bolso, porque o melhor é a riqueza humana que brota de cada uma dessas pessoas. Seu Luiz parece conhecer todas elas, e suas histórias. Discretamente, partilho de trechos de algumas delas. Algumas pedem os pastéis pra levar pra família, pro trabalho, pra depois...; enfim, pra viagem. E aí, lembro da minha viagem - 50 Km da zona sul do Rio até o destino Itacoatiara. Lembro da tal receita médica, digamos assim, pra aliviar as dores de cabeça e do joelho. Das quais, meia hora de bar, não me lembrava mais. A prescrição leiga seria respeitada e eu seguiria o caminho até a região oceânica de Niterói. A praia de Itacoatiara continuava linda, o Costão convidou pro mergulho, a Pedra do Elefante protegia, como um emblema, também a manhã seguinte. Farta, a partir de um café da manhã servido na padaria do bairro ao qual neste caso caberia sem exagero a expressão de  pequeno almoço, usada pelos portugueses. Ainda mais saudável, depois de cinquenta minutos de caminhada moderada. Diante da beleza do bairro, e de sua gente, o joelho dobrou-se várias vezes; portanto passou no teste. A alma lidou com flores e árvores do nome das ruas. A dor de cabeça não resistiu ao tratamento - um coquetel composto pelo vento no rosto, pela beleza da Baía e do Rio visto da Ponte, pelo Caminho Niemeyer... Camboinhas e agora as ruas, o verde, a Pedra e o mar em Itacoá. Ouvidos os médicos e os leigos, está comprovado porém que foram o Ingá, sua gente e seus pastéis, e o balcão do Bar Manhães os indícios científicos da cura. Preciso repetir o tratamento. Mesmo sem dores de cabeça, dizem que a prevenção é o melhor remédio. Registre-se que por mais agradável que seja o vento vindo das praias de Boa Viagem e das Flechas, ele fica do lado de fora no caso dos pastéis do Seu Luiz e do seu Bar Manhães. Não passo abril sem voltar lá, pra conhecer o pastel de carne seca.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Botafoguense vence em São Januário

Fui assaltado. Dez e meia da manhã de sábado, ao lado do belo estádio de São Januário. Drogado, bêbado ou longe de si, o bandido optou por puxar-me o ombro uma, duas vezes... Me chamou de valente quando reagi com um empurrão ao terceiro puxão no meu ombro, que fez com que ele, feito ioiô, fosse e voltasse do encontro de suas costas com a lateral do ônibus enguiçado, encostado junto à calçada. Na volta, ele já exibia o redutor da minha valentia. O movimento do braço direito era de quem ia atirar, o do esquerdo buscava e ganhava de mim um relógio nosso - de meu pai e de meu avô. Meu pai viu fantasmas quando lhe contei a história: perdera ele o pai; eu, o avô, semanas antes. Ganhava de volta o filho com a valentia sintetizada pelo tremor pouco controlável das canelas - o que doía era isso, não a cabeça e seus quatro pontos ou o curativo junto à orelha. Ao olhar para o relógio que se ia embora, a cabeça pendeu para a esquerda e, se tiro não houve, ouvi o zunido na cabeça depois da primeira coronhada, o reflexo do braço a desviar para a orelha a segunda. A explosão de raiva veio meio segundo depois da fuga do bandido, chamando de bando de covardes o grupo que assistiu de um bar, omisso, a esta cena de minuto. Fariam o que? Levar um teco por mim? Não, não havia ali nenhum Jon Jones, com certeza. Quando meu sangue já fazia reticências na calçada, surgiu um anjo da guarda na pele de uma moça morena e um oásis composto por um tanque com água fria e abundante sobre minha cabeça e uma toalha limpa em torno dela. Foi esse conjunto que me confortou até chegar ao hospital, ao curativo e aos quatro pontos. Embora só a toalha e um amigo fossem até lá comigo. Esse amigo - que ficara para trás alguns segundos, na saída do clube e que viu este agora blogueiro atravessar a rua alguns metros à sua frente -  me reencontrou com a cabeça gotejante sem entender o que acontecera... Os quatro pontos se foram já faz tempo.
O fato tem mais de 30 anos, e a região foi revisitada várias vezes nesse período. Na penúltima vez, na companhia da mulher amada, perdendo a conta de chopps no bar Adonis por conta da companhia de um calor dos diabos e de um bacalhau dos deuses. Seguidos de uma duríssima e suada (lá se foram os chopps!) vitória vascaína em São Januário.
Hoje foi diferente: Não me lembro de ter estado tão sozinho e tão perto daquela cena e daquele local como hoje. Não me consta que alguma UPP esteja lá instalada, e o lado do estádio que faz margem com a rua Ricardo Machado e a Barreira do Vasco merece ao menos a Comlurb para livrá-lo do lixo que estava na calçada por volta das 15h30. O bar da cena de minuto está no mesmo lugar, os covardes devem ser outros, os anjos da guarda devem ser os mesmos, mas puseram-se invisíveis no trecho entre as ruas General Argolo e General Almério de Moura. Quase ninguém na calçada, uma sensação de dejavú e um simpático casal próximo da estátua mal cuidada do personagem que dá nome à rua Francisco Palheta. Feita a volta, caminho de propósito mais longo pra alcançar a fachada do clube, chego à entrada social do belo estádio. Não resisto a entrar no clube para revisitar a sala de troféus, porém aberta somente de terça a sábado. Não faz mal, venci a Barreira de novo, quase 30 anos depois, projeto quase ao acaso de uma tarde de segunda-feira nublada.
Em que tratei de cuidar, uma hora antes, do corpo e da alma, descendo do ônibus 472 na esquina da rua São Januário com General Argolo, portas (sim, no plural) do Bar Corujinha, ou Bar do Júlio. A propósito, botafoguense vencido pelo vizinho Vasco da Gama ontem, jamais vencido acho eu no filé das próximas linhas. Provocado semana passada por uma conspiração entre o blog de Juarez Becoza e o e-mail do amigo Cardoso e pressionado pelo stress (ou estressado pela pressão) que me sinaliza a falta de tempo quando tempo não falta, decidi provar o filé avenida do bar. A cerveja foi adiada, mas o filé foi vencido com apetite de campeão de terra e mar. Se for possível encontrar por aí um contra-filé de qualidade, saboroso, no ponto e tão bem guarnecido quanto o da foto (além de sê-lo, ainda, pelos generais de São Cristóvao e pelo almirante Vasco da Gama) mais um pudim de leite Moça como aqueles que só as mães sabem fazer, pagando menos de R$ 19,99... Sei não, tenho a convicção de que o Bar do Júlio dificilmente será vencido. No máximo,  empate e decisão por pênaltes. Porque pênalte não tem  barreira.

domingo, 6 de março de 2011

Bin Laden e Bush - separados por uma ponte; separados?

Um compromisso me levaria ao Gragoatá naquela quinta-feira à noite. Dia livre, decidi ir pela manhã até a Região Oceânica de Niterói, onde almoçaria, haveria tempo pra um mergulho e o retorno pro Gragoatá no início da noite. Mal sabia eu que pararia no caminho, em São Domingos, pra conhecer finalmente o ponto de encontro dos talibãs, uma caverna que Bush filho daria tudo pra conhecer antes que lhe desvendassem a cascata das armas químicas no Iraque. Deposto Sadam e esquecido Bush, voltemos a São Domingos. Encontro Celso, um dos donos da Caverna do Bin Laden,  jeito de boa praça que faz questão de abrir-me a casa, já devidamente aberta e com uma mesa de simpáticos senhores tomando uma gelada no final da manhã - não têm o jeito de quem se justificaria fosse pelo horário ou pelo calor que fazia, apenas degustavam o precioso líquido e pareciam felizes. Eu é que sentiria uma certa culpa se bebesse àquela hora - nada que Freud explique (ou não) - porque o corpo pedia mesmo um água e um café. A água, servida pelo atencioso Celso, veio acompanhada do convite pra conhecer a casa, com luz mínima na parte da frente e suficiente pra se jogar uma sinuca, no salão ao fundo. Celso se empenha em falar na boa frequência da casa, que recebe estudantes adultos da UFF, vizinhos e público da redondeza. Celso se adianta e expõe com orgulho a escassez da luz - assim não fosse, como chamar o lugar de Caverna? Prometi voltar pra tomar uma cerveja no ponto.
De saída, e ainda que o mergulho em Itacoatiara fosse adiado, a Estação Cantareira e a praça me jogaram nos braços de São Domingos, o bairro que faz fronteira com o Gragoatá e o Centro.
Dei a volta na praça com os olhos, cruzando-a em diagonal. E me deparei com o Vestibular do Chopp.  Já vi de quase tudo nessa linha; ou acho que vi: Sindicato do Chopp, Universidade... Avisem aí se conhecerem o Congresso ou o Senado do Chopp, mas eu desconfiaria da qualidade destas casas - que conseguem ter lá gente procurada pela Interpol e que lá anda como representante do povo.
Foi então que a vontade do café pingado encontrou-se com uma padaria. Ou, com a padaria...mas esta será outra história...o passeio do acaso ao bairro continuaria.
Deste primeiro pedaço fica a certeza de que Bin Laden está próximo de Bush. Sempre esteve. Em que sentido quiserem, sob pontos de vista antagônicos, inclusive. Melhor mesmo seria que ambos pudessem tomar a máquina do tempo de H.G. Wells e que, antes da guerra, das guerras, de destruírem ambos vidas ou lugares preciosos; de mudarem para pior o curso da história, fossem tomar uma gelada em paz no boteco do Celso.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Design nascido em Viseu

É tempo de Festas e - como não lembrar? - dos bolinhos de bacalhau feitos por minha mãe com o design próprio da massa na palma da mão, dedos fechados na direção do pulso. Os dito cujos - assombrem-se - tinham o ingrediente indispensável (bacalhau) e, depois de fritos, tinham a aparência dourada, tal e qual as terras do Douro, tal e qual o ouro daquele coração luso. Lembrei-me dos bolinhos de bacalhau feitos por D. Henriqueta no restaurante de mesmo nome, na rua Francisco Dutra, no finalzinho de Icaraí. Mas que não está mais lá. Bem parecidos, talvez ainda seja possível encontrá-los na Gruta de Santo Antônio, restaurante de D. Henriqueta na Ponta de Areia, ou Portugal Pequeno, na zona portuária de Niterói. Passada a ponte Rio-Niterói, a rua Feliciano Sodré deixando já para trás a Ponta de Areia, chego à Visconde do Rio Branco, que se estende desde o Mercado do Peixe até depois do Plaza Shopping, em Niterói. Logo na primeira esquina - com rua Dr. Fróes da Cruz - encontro o Império do Bacalhau, onde provo seus honestos e saborosos bolinhos de bacalhau. Que nada devem aos do Caneco Gelado do Mário, vizinho de bairro. Pequenas bolas de golfe, quentinhos, crocantes e a acompanhá-los um bom azeite português sem miséria nenhuma. Seu Altino, português do Distrito de Viseu, derrama bom atendimento e simpatia. Peço o cardápio, mas como encarar um dos diversos pratos de bacalhau se estou sozinho? Quase peço socorro a algum amigo de Niterói, mas eram quase três horas da tarde e quem venceu naquele dia foi o Mazembe - sapecando 2x0 no Inter de Porto Alegre - e um contra-filé executivo. O bacalhau, exceto o dos bolinhos, fica pra outro dia. O lugar é simples e junta bar, restaurante, adega. Tem música ao vivo às sextas-feiras, e espaço de sobra. Há o vinho da casa e, é claro, vinhos portugueses. A cerveja é servida bem gelada, que o calor era intenso. Os ventiladores fazem bem a função de nos tirar do calor do Senegal. A TV via satélite falhou e assisti com chuviscos na tela da TV aberta o Mazembe ganhar do Inter por 2x0. Para cada gol, uma Antarctica Original. Ajudaram-me a escapar do calor senegalês, mas os gaúchos não conseguiram se livrar do calor do ataque do time do Congo. De volta ao Rio, de novo pela Feliciano Sodré, vejo a placa indicando Portugal Pequeno, lembrete pra me fazer voltar daqui a algumas semanas, tomar o caminho do bairro e revisitar o design daqueles bolinhos pela forma que D. Henriqueta não deve ter abandonado. Seja como for, o apetite foi saciado. E apesar do design mais arredondado dos bolinhos do Império, o Seu Altino também é da escola de Viseu.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Paralelas que se encontram

Alguém aí conhece a Poetas da Calçada? Ou já foi ao Kuwait? Ou já topou com Francisco Alves na travessa em pleno século XXI? Já comeu purê cor de rosa? Conhece Tricanas da Beira? Periquita?
Calma, que ainda estou fora da nave.
O forum global carioca é evento constante na cena carioca, seja no SAARA ou em Copacabana, mas esta edição ocorre entre paralelas. Já disse que o mundo cabe numa rua, e cabe, mesmo num estreito. Entre as ruas Treze de Maio e Senador Dantas. Ruas que por si só têm suas atrações. Ambas escorrem gente, rios de gente em águas de mão dupla. A primeira é língua que busca, de um lado, a brisa baiana da Guanabara. Do outro, o ar no Largo da Carioca. Corre o risco de secar porque depois dele, em dias como o de hoje, o duto da rua Uruguaiana suga-lhe a brisa e devolve calor de compressor. E o verão ainda não chegou. Não? Passa, num sentido ou no outro, por boas tentações de arte, cultura, arquitetura e fé. Todos, ou quase, juntos, em cada um dos lugares. Afaga o prédio onde não é mais o Cordão do Bola Preta, mas de onde ainda saiu seu bloco, nosso bloco, no último carnaval. E lá estará no próximo. Cola o rosto ao Theatro Municipal, centenário renovado; flerta com o Caixa Cultural, na esquina com Almirante Barroso. Na mesma esquina, admira o estilo neomanuelino do Liceu Literário Português. Olha com fé para o Convento de Santo Antônio, já no Largo mas ao alcance dos olhos da Treze de Maio. No sentido contrário, de volta ao Bola Preta, a rua perde o nome pra Praça Floriano. Faz mal não, todo mundo chama de Cinelândia. Ainda se chama Treze de Maio e é possível aos olhos ver a Biblioteca Nacional, o Centro Cultural da Justiça Federal, o Museu Nacional de Belas Artes - ainda que a rua torça o pescoço pra ver um deles. A outra rua, a tal paralela que eu já ia perdendo a chance de encontrar neste espaço finito é a Senador Dantas. Também tem história. Pena que há alguns prédios abandonados ao destino que abriga mendigos, camelôs, desocupados. Mesmo destino que abriga o blogueiro. Quem tem 50 anos se lembra do Cine Vitória. Ainda é possível enxergá-lo no meio do cinza da poeira e do cimento, e do cáqui dos papelões - camas ou displays conforme a ocasião. A primeira esquina nos entrega o Passeio Público, seu jardim e o chafariz de Mestre Valentim. O imponente prédio que já foi o Hotel Serrador, a saudade do relógio da Mesbla, companheiros de calçada da Senador Dantas. A segunda, na contramão da rua, à esquerda, com a rua Evaristo da Veiga, flerta com a Lapa, os Arcos novamente brancos. A subidinha antes da última é o acesso ao bondinho de Santa Teresa. Catedral por perto, e as catedrais da Petrobras, do BNDES, da Caixa Econômica Federal, idem. Tudo perto de território chileno e paraguaio - Avenidas Chile e República do Paraguai.
Voltemos aos Poetas, na verdade à Travessa dos Poetas da Calçada, que se estreita entre as ruas Senador Dantas e Treze de Maio. É lá que se juntam o vinho Periquita, algumas mesas com a garrafa, e o azeite Tricanas da Beira em todas elas - portugueses, com certeza. Mais o Francisco Alves, nome de cantor das antigas, garçon do restaurante Al Kwait, tão atencioso e simpático que me sugeriu (e me convenceu a provar) um par de kaftas acompanhado de um purê de beterraba, o tal purê cor de rosa, ambos consumidos pela fome das três da tarde, honestíssimos. No cenário do restaurante, um democrático balcão onde se pode pedir a bebida, as esfihas e "o melhor quibe do Rio" - assim também chamado nos restaurantes típicos e nos seus balcões do SAARA, na galeria Condor no Largo do Machado, na Galeria Menescal e no Amir, ambos em Copacabana...e provavelmente em meia dúzia de lugares cuja qualidade da oferta obriga a empate técnico. Meu voto é pra galeria Condor, mas a culpa é da esfiha, do suco e do cara do balcão que chama todos de primo, primo. Não notei no Al Kwait garçon ao qual coubesse tratamento diferente de Senhor. Nosso Francisco Alves, chamado Chiquinho, talvez seja um dos poucos por lá sem a autoridade dos cabelos grisalhos.  A proposta do Chiquinho é aparecer de novo por lá, numa quarta-feira, pra provar o Carneiro. Depois, quem sabe, pegar o bondinho, ir até Santa Teresa e tomar a saideira no Bar do Arnaudo. Mas esta proposta é minha. Paralelas que se encontram felizes - pelos braços de Alcindo Guanabara, de Evaristo da Veiga e dos Poetas - Treze de Maio e Senador Dantas entretanto não sobem ladeira nem pegam bondinho.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Carta a um Amigo do Bar Flora e sua Oferta Imperdível

Meu Caro Amigo,
Aceitei a tua provocação e fui, depois de ler a nota na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, até o Bar Flora, na Rua da Carioca, 16. Eram quatro e pouco da tarde. Conversei quase dez minutos com 
D. Idalina, ela a explicar que estão mesmo cansados - ela e Seu Gomes - e que o negócio em que estão não rende como antes. Decerto passarão o ponto, e virá alguém para investir e - queira Deus - manter a alma do local, renovar-lhe o corpo cansado e a bela marca de 130 anos. Reunindo no local, quem sabe, um Café ou um restaurante e, é claro e desejável, a Mercearia. Lá, lugar coalhado de gente simpatica - alguns jalecos surrados tiveram peso zero em relação ao atendimento cortês -, atendido por dois vendedores; um, à entrada, outro, à saída. A conversa com D. Idalina foi junto ao guichê do caixa. Tive enormes vontade, timidez e constrangimento de tirar com D. Idalina, Seu Gomes e funcionários uma foto para a História. Mas seria a minha história e esta está garantida pela lata de cookies que trouxe comigo, que com certeza acabam neste final de semana. O Bar (mercearia, para ser preciso) viverá sempre comigo, ao lado de D. Idalina e do embrulho típico, com barbante e tudo, que amarram cada vez mais o Centro do Rio no coração deste teu amigo carioca.
Mais uma viagem no tempo! Não sei onde vou parar, qualquer dia me perco e não haverá nave capaz de fazer o resgate, de me trazer de volta. A não ser que viaje para o futuro onde seja possível que novo e antigo convivam em harmonia.
Em tempo: Passe lá um dia, e não se incomode se o ar parecer um pouco decadente no local. Isso passa em poucos segundos.

Você está no início dos anos 60, D. Idalina abrindo a casa. Numa calçada próxima da Rua Uruguaiana meu pai caminha de mãos dadas comigo e me mostra, eu aos seis, sete anos, a loja de tecidos onde trabalha...
Portanto, entre, tome uma Coca gelada e compre uma caixa de cookies, ou um vinho do Porto, uns doces, ou umas castanhas. Observe os armários, o imenso pé-direito da casa. Se quiser bacalhau, lembro do aviso à entrada: ele está bem guardado dentro de casa. Expostas ao burburinho da rua da Carioca, só algumas poucas postas. Há muito mais lá, um pouco de tudo, você pode sair de lá carregado como se fosse ao supermercado. Mas como? Como concorrer, D. Idalina, com os gigamegahipersuper ou mesmo mercados de hoje? A História conta 46 anos de D. Idalina no local, e 65 do Seu Gomes, a quem observei por alguns minutos com respeito e reverência. Oitenta e poucos anos, a maior parte naquele lugar, o seu emprego único. Por favor, meu amigo, leia este adjetivo - único - além do sentido óbvio que sugere.
Lembrei que antes de falarmos, hoje pela manhã, sobre o Bar Flora, você me falou do vinho EA (da Fundação Eugênio de Almeida), oferta imperdível por R$ 23 nos supermercados Mundial. Mas entendo que você, nós, os amigos, o Ancelmo Gois, os leitores de O Globo e o Rio de Janeiro inteiro deveriam ir até o Bar Flora comprar ao menos uma garrafinha de vinho pagando um pouco mais caro. Ou vamos todos só pra ver os olhos de D. Idalina. Abraços, Augusto